Querida Flavinha, carta 1 – Deus, a Trindade e a gênese do casamento

Essa série, “Querida Flavinha”, é uma compilação de cartas sobre casamento que estou escrevendo e enviando à minha prima, Flávia. Ela me permitiu postar o conteúdo no Graça com o objetivo de ajudar quem estiver, assim como ela, se preparando para o matrimônio. Essa é a Carta 1, sobre Deus, a Trindade e a gênese do casamento.

____________________________________________________

“Disse mais o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea.” (Gênesis 2:18)

Querida Flavinha,

Que mistura estranha de sentimentos é te escrever essa carta. Eu sei que é clichê dizer isso, mas parece que foi ontem que nós estávamos brincando de casinha no quintal da sua casa e agora, aqui estou eu, escrevendo para você sobre casamento sentada na mesa da minha copa, dentro da minha casa, onde moro com meu marido. A Bíblia tem razão — a vida é um sopro. Eu imagino que nós piscaremos e de repente essas cartas estarão sendo repassadas às nossas filhas enquanto elas se preparam para seus próprios casamentos. Imagina essas menininhas Veríssimo, mantendo uma linhagem de mulheres fortes como a vó? Só de imaginar meus olhos se enchem de lágrimas, imagino que os seus também!

Eu te agradeço pela paciência, desde já, em ler esses meus pensamentos que por vezes serão desconexos e confusos. Meu objetivo com essas correspondências não é te preparar completamente para o casamento — somente o Espírito Santo pode fazer isso. O meu desejo, na verdade, é que essas cartas possam te contar um pouco daquilo que eu desejava ter aprendido antes de casar. Coisas sobre Deus, sobre mim mesma, sobre meu marido, sobre casamento e outras coisinhas mais. Eu sei que nessa época de noivado é muito fácil ficar presa aos preparativos da festa e esquecer de preparar o mais importante — seu coração. O casamento não é uma linda festa de uma noite, mas sim tudo o que acontece assim que essa festa acaba. Por isso, nessa esperança de te ajudar a preparar-se para uma vida inteira a dois, escrevo essas cartas. E, como um bônus, é uma forma de nos mantermos conectadas. E que maneira melhor de fazer isso do que ao redor da Palavra de Deus, entendendo o que Ele quer de nós?

Eu preciso começar te dizendo o quanto estou orgulhosa da mulher que você se tornou. Nós sempre fomos opostos — eu mandona, você boazinha. Eu liderando, você graciosamente aceitando minhas ideias loucas. Eu difícil, você um amor. É fácil perceber quem sempre foi a melhor entre nós (dica: não sou eu!). E você cresceu e, para minha surpresa, ficou ainda melhor — dedicada, inteligente, amorosa, cuidadosa, altruísta e linda (que é apenas um bônus para complementar toda a beleza interna). Eu não tenho dúvidas de que o Guilherme será muito feliz ao seu lado, e estou tão alegre de ver a forma como o Senhor Jesus levou vocês a unirem-se. Que toda a glória seja a Ele, sempre, por essa união! Só de pensar em você como noiva eu já tenho vontade de chorar. Mas vou segurar as lágrimas por agora, senão não consigo terminar essa carta… 

Eu penso que não há lugar melhor para começarmos do que falando de Deus, afinal de contas sem Ele casamentos podem até funcionar, mas nunca serão o que foram criados para ser. Não podemos tentar entender algo sem perguntar àquele que criou o que Ele mesmo queria que isso fosse. E eu posso te garantir uma coisa — casamento não é aquilo que nós crescemos consumindo em filmes, novelas e livros. Nessas mídias o casamento nunca é retratado de verdade, porque sempre aparece no começo, no felizes para sempre. Mas a realidade do casamento não aparece na linda festa, mas te atinge como um soco no estômago na primeira briga. E é aí, Flavinha querida, que o casamento se torna real. No primeiro momento que você pensa “O que foi que eu fiz?”. Sabe, no começo eu me perguntava se havia algo errado comigo, mas não. Descobri que muitas das minhas amigas também tiveram esses momentos. Então já começo nossas correspondências com essa afirmação — não se assuste se esse dia chegar para você também. 

Mas, vamos falar mais sobre conflitos mais pra frente. Por agora, voltemos ao começo de tudo… Antes mesmo de Gênesis. Voltemos para quando na eternidade só existia Deus. 

Você já parou pra pensar, Flavinha, que Deus é eterno? Eu sei que isso é óbvio para nós, cristãos, mas as implicações são tremendas! Ele é Eterno e isso significa que antes de tudo Ele já existia. E se Deus é triúno, como nós cremos que Ele é, então desde a Eternidade já existiam relacionamentos. Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo já viviam em um relacionamento perfeito. E sabe o que é mais incrível ainda? É que quando a Trindade criou o homem (eles mesmo disseram “façamos”, no plural), ela soprou nEle a vida e o fez conforme Sua imagem e semelhança. Então o significado de tudo isso é que nós humanos, desde Adão, fomos criados para relacionamentos. 

Quando nós vemos o relato da Criação, fica tão claro que Deus planejou que o ser humano fosse relacional. Deus criou todas as coisas, toda a beleza que a gente vê no mundo (e tem muita beleza naquela cidade linda na qual você cresceu, então você sabe muito sobre isso), todos os animais, flores, árvores, sabores, cores, cheiros. E então quando Ele olha o homem, Ele conclui, “não é bom”. Não o homem em si, claro, mas o fato de ele estar só. Se como humanos carregamos a enorme responsabilidade e privilégio de ser imagem de Deus, então carregamos também a  enorme responsabilidade e privilégio de sermos relacionais. 

Deus dá, então, um trabalho a Adão: era preciso nomear todos os animais. Sabe o que é precioso (e essa ideia eu aprendi com a autora Jen Wilkin)? Deus queria que Adão percebesse algo conforme nomeava os animais. Pensa nessa imagem: a cada novo animal que Adão nomeava, ele pensava, “Esse não é como eu. Esse não é como eu. Esse também não é como eu”. E em seu coração ele foi sentindo o peso da solidão — nenhuma criatura era como ele. Ele estava só. E então, creio eu, Deus começou a brotar em Adão essa necessidade de alguém que fosse como ele, com quem ele pudesse realmente se relacionar (“Todavia não se encontrou para o homem alguém que o auxiliasse e lhe correspondesse” Gênesis 2:20).

Quando Deus faz o primeiro homem adormecer e de sua costela cria uma ajudadora idônea (nós vamos falar mais desse termo em uma carta futura), Ele está dando a Adão aquilo que seu coração precisava, ainda que ele nem soubesse direito disso ainda. E é por isso que o primeiro homem explode em adoração, maravilhado com a esposa que Deus o deu: “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada” (Gênesis 2:23). Percebe como ele diz, “Essa sim”? É como se ele finalmente pudesse declarar, “Essa é como eu!”. 

É claro para nós, Flavinha, que o plano original de Deus para o casamento é belo e intencional. O mundo pode nos dizer que o casamento é uma instituição falida, e talvez o número de divórcios esteja aí para comprovar essa visão. Mas nossa certeza está baseada não em estatísticas mundanas, mas na Santa Escritura que nunca muda, porque é a palavra eterna de um Deus real e imutável. Deus não mudou com as normas e culturas modernas, e Seu plano original também não mudou.

Por mais que o mundo esteja caído em pecado, nós podemos descansar que Deus permanece o mesmo e por causa do sacrifício de Jesus Cristo, Filho de Deus, nós podemos receber o casamento como uma dádiva que pode ser redimida a cada dia para a glória de Deus. Não é bom que o homem esteja só. Alegre-se que, com o casamento, Deus te dará ao Guilherme como uma ajudadora idônea. Isso é plano divino, e ainda que o inferno, o inimigo e o mundo tentarão derrubar essa família, maior é O que a planejou. Que benção! Que esperança!

Com muito amor,
Sua prima,
Fran