Espiritualidade na Cozinha: Jesus à mesa – Aprendendo com as mesas de Cristo nos Evangelhos
Algo interessante acontece quando nos juntamos à mesa para uma refeição. Não depende de quem está conosco ou dos pratos que serão servidos, muito menos de quem os preparou e de quem lavará a louça ao final do jantar. Esta realidade não é anunciada em palavras quando nos sentamos à mesa, mas compreendida de uma maneira silenciosa e discreta por todos ao seu redor. Refiro-me ao fato de que não interessa de onde vem e para onde vai, qual cargo ocupa, o quão importante você é ou deixa de ser, estado civil ou quão grande é sua família – quando nos achegamos à mesa, todos nos aproximamos dela com a mesma necessidade, que nos coloca em pé de igualdade uns com os outros. Todos necessitamos do alimento. Nessa hora, não há maior nem menor, apenas simples mortais buscando um bocado de comida necessário à própria existência.
Assim como qualquer um de nós, nosso Jesus Cristo se achegou à mesa para saciar sua fome física. Sua biologia funcionava como a minha e a sua, apesar de sabermos que Ele é também Deus. Ele se submeteu a necessidades reais e limitações que o nosso corpo humano oferece, e, como nós, comia com prazer e ações de graças. Basta uma leitura básica nos Evangelhos que vamos encontrar eventos nos quais Jesus se sentou à mesa e dividiu refeições com simples mortais. Ele se fez como nós.
Existe todo um ritual ao redor do “sentar à mesa”. Sou dona de casa e mãe, e sei muito bem o que significa um jantar. Talvez, para os meus filhos, signifique comida sobre a mesa, seguido de um pedido de sobremesa. Para mim, é planejamento de refeições, compras de mercado, preparação dos pratos, organização da cozinha, serviço à mesa e, depois, todo o trabalho de limpar a bagunça que cozinhar acarreta, devolvendo tudo no lugar só para recomeçar em breve. É cansativo só de detalhar esse processo. O “sentar à mesa” é mais do que levar comida à boca. Note que existe serviço em todos os passos desse processo: aqueles que plantam, aqueles que distribuem, aqueles que planejam, aqueles que preparam, aqueles que limpam, aqueles que compartilham, aqueles que passam o sal e pimenta de uma ponta da mesa para a outra, aqueles que lavam os pratos ao final do ciclo. Talvez você seja tentada a ver “trabalho” em cada passo, o que eu também sou, e isso não seria de todo ruim; porém, quero reforçar aqui a ideia do “serviço”.
Acho hilário o fato de que Jesus se autoconvida, por exemplo, a ir jantar com Zaqueu (Lucas 19:5-10). Lá, Ele foi servido por Zaqueu e seus servos, mas bem sabemos que Ele também os serviu (ou pelo menos ofereceu o que estava no seu canto da mesa). Existe até um tanto de humildade em deixar que outros te observem mastigar a comida – um processo que nem bonito é – e, nesse sentido, Jesus se dispunha a se inclinar à mesa com quem quer que fosse, fossem ricos e orgulhosos como Zaqueu, ou pobres e envergonhadas como prostitutas. Ele estava disposto a dividir refeições com todos que abrissem a porta e o deixassem cear. Para os cobradores de impostos e pecadores lá na casa de Mateus (Mateus 9), Ele mostrava: “vocês não entenderam que eu quero dividir com vocês mais do que simplesmente um pão? Eu vim para saciar sua fome! Não tem porque terminar essa refeição famintos! Eu vim para servir vocês com o melhor que existe!”
Quais são as conversas à mesa que temos tido? Será que estamos nos despedindo dos que dividem o pão conosco ainda famintos depois de tanto comer? Juntar-nos à mesa pode ser um instrumento de compartilhar do Pão da Vida com aqueles que precisam.
Também vemos Jesus comer com seus amigos Marta, Maria e Lázaro, em João 12. Maria ungiu seus pés enquanto Marta serviu o jantar. Os dois sendo atos de adoração, e Jesus recebendo-os, sabendo que o dia em que elas não poderiam servi-lo dessa maneira estava próximo. Sentar à mesa também é um ato de adoração, quando contemplamos a beleza dAquele que provê todas as coisas, e que se faz presente em todo o tempo (mesmo quando discussões acaloradas se levantam ao redor da mesa). Juntar-nos à mesa pode ser um instrumento de adoração em comunidade.
Obviamente nos lembraremos com clareza da última ceia. Leonardo da Vinci nos fez o favor de ilustrar e colocar sua pintura como um ícone em nossa mente. A última ceia é relatada nos quatro Evangelhos, e, nesse evento, vemos com evidência o cuidado de Jesus Cristo em dividir um último jantar com aqueles que investiram tudo o que tinham para segui-lo. Como uma despedida, Ele convida os doze para compartilhar daquele pão e daquele vinho que viriam a tomar uma nova proporção nos dias que se seguiram. Naquela ocasião, Ele nos instrui a nunca deixar de tomar o pão e o vinho juntos, como corpo, como igreja, até que Ele venha e nos receba em Seu banquete no casamento entre a Noiva, sua igreja, e o Cordeiro Santo. Não é lindo saber que Seu desejo é que continuemos a cear juntos em união? Juntar-nos à mesa pode ser um instrumento de proclamação de Sua obra na cruz e de lembrança de que virá em breve.
Um dos meus relatos favoritos de Jesus dividindo uma refeição é o café da manhã com alguns dos discípulos à beira-mar, relatado em João 21. Nessa ocasião, o próprio Jesus preparou o cenário e convidou-os para que partilhassem pão com Ele. A ressurreição já havia acontecido, e aquela era a terceira vez que Ele aparecia aos discípulos. Depois de uma noite inteira com redes vazias, eles escutam a voz do Mestre instruindo-os a lançar a rede para o outro lado. Cento e cinquenta e três peixes encheram a rede, fazendo aquela noite valer a pena, de um ponto de vista financeiro. Jesus Cristo usou essa oportunidade para instruir Pedro a apascentar Seu rebanho, a cuidar dos que são Seus. Se nos assentamos com mestres, pai e mãe, ou com pessoas diferentes de nós, podemos aproveitar a oportunidade para aprender. Juntar-nos à mesa pode ser uma oportunidade de instrução e crescimento, na qual podemos exercer humildade, fazer perguntas e dar respostas. Juntar-nos à mesa é um momento de refletir que se não fosse nosso Senhor, nenhum sustento teríamos.
O que você aprende com as vezes em que Jesus se assentou à mesa? Ele está preparando banquete e morada para com Ele vivermos e cearmos eternamente. Mal posso esperar por esse dia. No entanto, enquanto esperamos, que nossas mesas possam ser um grande ensaio do que estar por vir: alegria, gratidão, curiosidade, encorajamento, conselhos sábios, risadas sinceras, reconhecimento de toda provisão e crescimento dos relacionamentos. Que estes sejam alguns dos elementos a rechear nossas conversas, e que as cadeiras ao redor da mesa sejam usadas tanto por aqueles que são nossos irmãos e irmãs em Cristo quanto por aqueles que ainda não O conhecem. Que possamos servir aos nossos e à nossa comunidade com o que temos e o que somos, até que Ele venha.
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