Espiritualidade na Cozinha: O ministério da hospitalidade simples

Sede hospitaleiros uns para com os outros, sem murmuração. (1 Pedro 4:9)

No último fim de semana de março, realizamos a primeira Conferência do Graça em Flor, que aconteceu em Ribeirão Preto, interior de São Paulo  e, como eu moro no litoral de Santa Catarina, precisei de um lugar para me hospedar por lá.

Uma das voluntárias do Graça, a Érica, que também foi uma das palestrantes da Conferência, ofereceu para que eu ficasse na casa dela. A princípio fiquei pensativa por duas razões: a primeira era que ela mora em uma cidade vizinha e talvez fosse mais fácil ficar em Ribeirão, e a segunda era que ela tem uma bebê de quase um ano, e eu sei o que é a logística com uma criança dessa idade — não queria trazer mais uma tarefa para ela. Ponderei, certifiquei-me de que realmente não iria atrapalhar demais a rotina, e aceitei.

Eu poderia ficar em um hotel, mas escolhi ficar na casa dela por um motivo talvez egoísta: eu tinha certeza de que eu aprenderia sobre hospitalidade e teria oportunidade de viver, na prática, essa orientação bíblica que é tão difícil para mim. Eu nunca tinha me hospedado em sua casa; aliás, só tinha visto a Érica pessoalmente uma vez, três anos antes. 

Mas por que eu estava tão convicta de que teria uma experiência significativa sobre esse tema? Porque ao longo desses anos convivendo com essa irmã, ainda que de forma online, eu percebi o quanto o coração dela era generoso e disposto em servir. E acredito que a hospitalidade começa exatamente aí: em um coração que deseja o bem do outro e agradar ao Senhor quando acolhe o próximo, ainda que esse acolhimento bagunce a rotina. É nesse tipo de coração que a hospitalidade floresce, porque ela nasce do desejo de colocar em primeiro lugar o que é prioridade para Deus, e exige colocar a mão no arado, porque não é possível ser hospitaleiro apenas na teoria.

Particularmente, vejo na minha vida dois dificultadores para exercer o ministério da hospitalidade. (Sim, é um ministério, um chamado de Deus para nós crentes). Para ser mais honesta, são dois pecados: o orgulho e a idolatria ao conforto. 

Orgulho por achar que os recursos que eu tenho nunca são suficientes: a casa, a comida, a organização, o entretenimento. Sempre existe algo a ser melhorado, na minha visão, mas a hospitalidade não é sobre mim. O objetivo em receber alguém não é, ao final, receber elogios e uma avaliação. É compartilhar a vida, a intimidade, as bênçãos que o Senhor tem nos dado. É prover ao nosso próximo um lugar para descansar, uma mesa para orarmos, conversarmos sobre a vida e sobre o que Deus tem feito. 

Conforto porque eu não quero me gastar naquilo que realmente me custa. Porque como não é natural em mim, todas as vezes em que sou hospitaleira é um ato de obediência ao Senhor, um pedido a Ele de ajuda, para que me dê alegria em servir aos Seus filhos. É sempre uma entrega, desejando que nesses momentos eu possa ser um canal de bênçãos como tantas pessoas já foram na minha vida, quando me receberam para me ouvir, partilhar uma receita gostosa e me aconselhar. Para demonstrar, por meio de ações, o amor que Jesus disse que deveríamos ter pelo nosso próximo. No entanto, isso não é uma tarefa simples na minha vida. 

A hospitalidade, na maioria das vezes, não é uma atitude individual, envolve a família toda. O filho da Érica me cedeu o seu quarto, o esposo da Érica me levou ao aeroporto, a sogra dela preparou uma torta de frango e um quibe assado deliciosos. Eles me presentearam com guloseimas especiais e vários cafés espressos, mas o que marcou meu coração foi aquilo que me ofereceram e que não é visível aos olhos. 

Eles me receberam como se eu fosse íntima, porque não havia formalidade, havia uma família crente disposta em apresentar o amor de Jesus e somente isso. Essa família não estava preocupada se estávamos fazendo a refeição à mesa ou sentados no sofá. Aliás, ficar jogada no sofá conversando e tomando uma coca gelada, foi o ponto alto dessa hospedagem para mim. Eles não ficaram justificando absolutamente nada, porque nada do que é aparentemente relevante, como louças, roupas de cama, cardápio, estava importando. Eles tinham muito mais a compartilhar do que havia ali. O mais importante já possuíam, que era um coração obediente e generoso, um coração tranquilo de quem recebe um irmão.

O marido da Érica é convertido há relativamente pouco tempo, mas me deu uma aula sobre servir, sobre prioridade, sobre como Deus usa cada um de nós no Reino. 

Na carta aos Romanos, Paulo diz aos irmãos, que agora tinham uma nova vida em Cristo, que não vivessem conforme o padrão desse mundo e recomenda algumas virtudes, dentre elas, a hospitalidade: “compartilhai as necessidades dos santos; praticai a hospitalidade” (Rm 12:13). Nesse sentido, a Érica e sua família supriram necessidades que eles nem sabiam que eu tinha, que ia além de um lugar para dormir, tomar banho e comer. A minha necessidade era ver o Evangelho sendo vivido na casa de uma família que ama ao Senhor, era renovar minha esperança e trazer à minha memória o que pode me dar esperança. Era me encher do amor de Jesus e voltar para casa transbordando.

Ser hospitaleiro é andar na contra mão do egoísmo e abrir espaço para a comunhão. Eles abriram espaço na mesa, na agenda, no quarto do filho e da filha bebê e isso é uma prova do que é entender e viver o Evangelho.

A hospitalidade é muito mais que uma casa com tudo alinhado, guardanapo de linho combinando com a toalha da mesa, taças e comidinhas que não sabemos do que são feitas. Ela tem a ver com o coração que está disponível para ceder e amar. 

Sou grata a Deus pela aula prática que Ele me proporcionou naquele fim de semana, por ter sido inundada por amor e cuidado, porque quando eu ouvi a Érica falando para o marido: “traz uma coca para a Rafa que ela gosta”, o Espírito Santo traduziu para mim: isso é praticar hospitalidade, é perceber o outro e demonstrar que de alguma forma ele é importante ali. Não são grandes gestos, mas intencionalidade e sensibilidade. Isso é acolher, o que é muito mais importante do que receber alguém. Percebe a diferença? Em um hotel, eu seria recebida, mas lá eu fui acolhida. 

Conto com a graça de Deus para que eu possa ser um canal de benção também para aqueles que estiverem na minha casa! Que eu me importe em apresentar Jesus, não com as minhas habilidades, mas com a minha obediência, e sem murmuração. 


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