Santidade no cotidiano: vivendo separadas em um mundo caído

Quando eu era criança e adolescente, não conseguia desvencilhar a palavra “santo” da ideia de pessoas separadas do mundo. Monges, freiras, missionários em terras longínquas… Se a Bíblia fala que ser santo é ser separado, nada mais lógico do que viver o mais distante possível da civilização em busca da santidade, não? 

Não! O que aprendi com o tempo é que o chamado à santidade não é exclusivo a um grupo de cristãos que tem um determinado estilo de vida. É, na verdade, um chamado para todos nós, crentes, o qual deve ser abraçado e obedecido onde quer que estejamos. 

A santidade é vivida, sobretudo, no ordinário. Embora momentos de retiro espiritual e congressos sejam maravilhosos e inspiradores à nossa fé, é no chão da vida, no cotidiano, que as coisas acontecem. A santidade pode estar em momentos extraordinários, mas também precisa ser um alvo a ser perseguido enquanto preparamos uma refeição, educamos nossos filhos, cumprimos nossas responsabilidades profissionais, respondemos com paciência a uma palavra áspera ou escolhemos permanecer fiéis a Deus quando ninguém está olhando.

Pertencer a Deus em um mundo caído

Como vimos, a palavra “santo” significa, em sua essência, “separado”. Contudo, essa separação nunca significou, necessariamente, isolamento físico. Jesus Cristo é o maior exemplo disso. Ele caminhou entre pecadores, participou de refeições, esteve presente em festas, trabalhou, chorou, celebrou e sofreu. Viveu plenamente inserido na realidade humana, sem jamais permitir que os valores deste mundo moldassem seu coração ou o desviassem do propósito de ser o Salvador.

Em sua oração registrada em João 17, Cristo Jesus não pediu ao Pai que retirasse seus discípulos do mundo, mas que os guardasse do mal no mundo. Esse é o desafio da vida cristã: viver no mundo sem absorver sua mentalidade caída. Conforme os ensinamentos de J. C. Ryle em seu livro “Santidade”, ser santo é buscar continuamente o hábito de estar de acordo com a mente de Deus, conforme  a encontramos descrita nas Escrituras. Essa definição nos lembra que a santidade não consiste em emoções intensas ou experiências extraordinárias, mas em uma vida moldada pela Palavra de Deus de modo habitual.

A santificação, embora tenha expressões externas, começa no coração. Jesus ensinou que o adultério nasce nos olhos, o homicídio nasce na ira e as palavras revelam aquilo que temos no nosso interior. Com a santificação, não é a intenção de Deus apenas modificar nosso comportamento, não precisamos de adestramento. Ele quer transformar nossos afetos, nossos desejos, nossas motivações. E isso acontece mais no cotidiano do que em momentos extraordinários. 

C. S. Lewis ilustrou essa verdade de maneira muito interessante em seu livro Cristianismo Puro e Simples, ao comparar nossa vida a uma casa em reforma. No início, até compreendemos algumas mudanças realizadas por Deus. Depois, porém, percebemos que Ele começa a derrubar paredes que julgávamos indispensáveis e isso é bem desconfortável, mas acontece porque Deus não está apenas consertando uma casa antiga, Ele está construindo um palácio onde Ele mesmo habitará. Não precisamos de ajustes morais ou comportamentais, precisamos de uma mudança completa que flua de dentro para fora e aponte para um caráter mais e mais semelhante ao do nosso Salvador Jesus Cristo.

A santidade é construída nas pequenas escolhas

Frequentemente imaginamos que nossa santidade será forjada em grandes ocasiões. Pensamos em perseguições, crises ou momentos extraordinários. Entretanto, a maior parte da vida cristã acontece no que chamamos de ordinário, nos dias comuns.

Somos santificadas quando, no cotidiano, escolhemos responder com mansidão em vez de irritação, quando cumprimos uma promessa, mesmo que ninguém cobre, quando trabalhamos com excelência, apesar de não recebermos reconhecimento, quando confessamos um pecado, ao invés de escondê-lo.

É nesses momentos, aparentemente simples, que o Espírito Santo molda nosso caráter. É nesse chão da vida que a santidade floresce.

Não é difícil ser mansa com os colegas de trabalho ou demonstrar amabilidade com os irmãos da igreja com quem convivemos poucas vezes na semana. Contudo, precisamos ter sempre em mente que o chamado para amar o próximo como a nós mesmas deve começar com aqueles que nos são mais próximos, os que convivem conosco diariamente. 

Temos uma tendência a não nos preocupar tanto em mostrar nosso pior lado àqueles que nos amam. Fazemos isso porque sabemos que o amor deles não mudará se nosso eu mais difícil vier à tona; no entanto, apesar do amor ser um ambiente seguro, ele não deve ser uma desculpa para “baixar a guarda” da santificação. 

Se conseguimos ter ações mais sábias e amorosas com os de fora, se conseguimos controlar a língua com os que são distantes, se sabemos ser amáveis com desconhecidos, é porque podemos agir de modo semelhante com os que estão mais próximos de nós.

Isso não significa uma vida perfeita, impecável, sem falha alguma. Na verdade, o processo de santificação também passa, e muito, pelo caminho do reconhecimento de erros e arrependimento. Se pudéssemos ser impecáveis por nossas próprias forças, para quê existiria santificação?

A santidade floresce pela graça e aponta para Cristo

Ao refletirmos sobre santidade, é fácil sermos dominados pela culpa, mas o Evangelho nos lembra que nossa esperança nunca esteve em nossa capacidade de sermos perfeitos.

Não buscamos santidade para sermos aceitos por Deus, buscamos santidade porque já fomos aceitos em Cristo e porque o Espírito Santo é quem realiza em nós tanto o querer quanto o realizar.

Sua pior falha nunca está além do alcance da graça de Deus, e sua melhor performance nunca é boa o suficiente para dispensar essa graça. Em Cristo, e por sua graça, estamos protegidos tanto do orgulho quanto do desespero.

No fim das contas, o objetivo da santidade não é apenas evitar determinados pecados, pois isso nos faria cair em legalismo. O propósito de Deus é muito maior: conformar-nos à imagem de seu Filho. Cada circunstância da vida — alegrias, perdas, rotina, trabalho, maternidade, casamento, solteirice ou enfermidade — torna-se uma ferramenta nas mãos do Pai para moldar nosso caráter.

Deus está construindo em nós algo muito maior do que conseguimos enxergar hoje. Ele não deseja apenas melhorar pessoas, deseja formar filhos semelhantes a Cristo. Somos chamadas a uma vida rendida, em todas as áreas, em momentos extraordinários e ordinários, ao nosso bom Deus. Que possamos responder a esse chamado com humildade, perseverança e confiança, lembrando que a santidade não é o caminho para conquistar o amor do Pai, mas a resposta alegre de quem já foi alcançada por esse amor em Cristo.


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