Santidade no Cotidiano: Separadas, mas não isoladas
Um dos atributos comunicáveis de Deus é a santidade e isso implica que Ele é separado de tudo o que criou, ou seja, Ele é singular em sua perfeição, justiça, bondade, misericórdia e amor. Sua santidade coroa todos os seus atributos, até mesmo sua ira é santa, e não há palavras que possam expressar a qualidade e profundidade que a palavra santo adquire quando se refere a Deus.
No entanto, pelas Escrituras, podemos acompanhar a vida de Cristo – a exata expressão do Ser de Deus – e ter uma compreensão mais humana do que é ser santo. Aliás, na Palavra está escrito: “sejam santos, porque eu sou santo” (cf. Lv 11.44-45; 19.2); logo, Cristo veio para nos salvar e ser nosso exemplo em todos os aspectos da nossa vida para que consigamos cumprir o que o Senhor nos pede, ainda que de maneira imperfeita.
Nosso Amado Jesus era um homem do deserto e também das multidões. Esse equilíbrio entre a solitude e a comunhão é, confesso, um dos grandes desafios da minha própria vida, mas Cristo nos ensinou que haverá momentos para estarmos a sós com o Pai e em comunhão com nossa família, amigos e igreja – aliás, acredito que a solidão absoluta possa ser considerada uma ilusão, pois Deus, por sua onipresença, sempre está conosco.
Por que isolar-se?
Vivemos na era das redes sociais, do excesso de informações, de relacionamentos virtuais, de vidas que anseiam por diversão e visibilidade. Ainda assim, há aqueles que preferem excluir as redes sociais e viver uma vida low profile (de perfil discreto), porque não veem mais sentido em socializar-se, seja de forma virtual ou real. Para essas pessoas, é possível que o foco seja adquirir independência, crescer profissionalmente, cuidar da saúde, ser o centro da própria vida sem nenhum tipo de compromisso que possa gerar algum desgaste ou perda de algo importante.
Em um primeiro momento parece que estamos falando apenas de pessoas que não são cristãs, mas, infelizmente, esses dois extremos – ser presente em tudo e afastar-se de tudo – podem ser vistos amplamente tanto entre cristãos quanto não cristãos. Esse movimento de isolamento tem se tornado um dos grandes desafios para a Igreja. Após a pandemia da Covid-19 e com as transmissões dos cultos pela internet, muitos cristãos escolheram permanecer em suas casas “cultuando” ao Senhor, em vez de frequentar suas igrejas locais, por ser mais confortável e prático.
Outros agravantes são os recorrentes escândalos na igreja brasileira: corrupção, lideranças abusivas, desentendimentos entre membros (presenciais e virtuais), fragmentação da unidade da Igreja por doutrinas secundárias e, embora sejamos chamados a tratar os pecados em nosso meio com a devida responsabilização e disciplina, além de, como a Palavra nos ordena, sermos compreensivos uns com os outros e perdoarmos quem nos ofender – afinal, Cristo nos perdoou (cf Cl 3.13) – seguimos preferindo nos afastar para “preservar a saúde emocional”.
Há ainda denominações que tornam usos e costumes meios de santificação, geralmente, movimentos sectários são mais propensos a essas práticas, tornando seus membros pessoas distintas da cultura mundana pelo que fazem, falam, como se vestem, como adoram a Deus e assim compõem um grupo de pessoas que consideram tudo o que está fora de sua denominação como pecado e heresia.
Muitas vezes, os motivos para retirar-se parecem legítimos e terapêuticos. O mundo caído no pecado é confuso, sedutor, perturbador e assustador e sair de tudo isso pode ser a solução, mas não por muito tempo. Podemos ver isso na vida de Cristo como nas vidas de Moisés, Elias, Jacó, Davi, Paulo — mesmo a separação e a solidão têm um propósito. Não são um objetivo, mas elas são um processo.
Chamados ao deserto
Ao longo da história da Igreja, entre os séculos II a IV, muitos cristãos também lidaram com essa mesma tensão. Neste período, aconteceu o fim do martírio vermelho (perseguição da Igreja) com a adesão do Cristianismo pelo Império Romano e, em seguida, houve o início do martírio branco quando os cristãos já não eram mais torturados e mortos, mas precisavam conviver com uma sociedade que valorizava o luxo, em uma era pagã e imoral. O mundo deixou de ser perigoso para se tornar sedutor. Alguns cristãos, com medo de cederem às tentações e baseados na vida de Cristo que se retirava das multidões para buscar a Deus, iniciaram um processo de retraimento que ficou conhecido como período monástico.
Homens e mulheres que se decidiram pelo celibato e por uma vida longe da sociedade direcionaram-se às regiões desérticas, principalmente no Egito, para cultivarem uma vida simples aperfeiçoando as disciplinas espirituais – oração, jejum e meditação na Palavra. Muito do que aprendemos hoje sobre elas têm como fonte os trabalhos dos pais e mães do deserto, a dedicação deles a viver a sós com Deus certamente pode contribuir muito com a Igreja atual.
No entanto, ao longo do tempo, percebeu-se que criar redomas de proteção para não cair em tentação nunca foi o objetivo de Cristo. Ele buscava os momentos de solitude para estar com as multidões, para ensinar, cuidar, consolar, fortalecer, curar, salvar; dessa forma o movimento monástico se reconfigura e o objetivo de retirar-se da sociedade deixa de fazer do isolamento uma fuga, mas um processo de santificação para autoexame, tratamento de pecados, para vestir as armaduras de Deus e voltar ao mesmo campo onde a batalha continua, onde a luta não é contra carne nem o sangue.
Do deserto à guerra
Como o nosso Pai, devemos ser distintos da cultura do mundo. Proclamamos o Reino de Deus e sua Justiça e, nesse sentido, somos e devemos ser separados do profano para que, por meio das boas obras que o Senhor nos deu para praticar, Ele seja conhecido, glorificado e muitos sejam salvos pelo Evangelho.
Quando a cultura do mundo rivalizar com a cultura do Reino, desembainhemos nossas espadas, que é a Palavra de Deus, para anunciá-la e combater toda a mentira onde quer que estejamos e mesmo que isso nos custe tudo, que nossa coragem esteja firmada na lembrança de que nossa Pátria não está aqui!
Por isso, retire-se para orar, jejuar e ler a Bíblia; esteja com Deus; se você cultivar com Ele uma amizade profunda, aprenderá a viver no mundo, separada dele. Porém, tenha em mente que nosso Senhor não nos deu um espírito de covardia; o isolamento nunca foi nem será um refúgio, pois o próprio Deus nos promete ser nosso refúgio e fortaleza nas batalhas da vida. Que no brandir de nossas espadas, que é a Palavra de Deus, o mundo possa conhecer o real significado de ser sal e luz deste mundo, de ser santo como o nosso Pai é santo.
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