Santidade no Cotidiano: O que significa ser santa?
Durante muito tempo, eu entendi a santidade como uma meta espiritual: algo alto, distante, quase inalcançável, mas que, ainda assim, dependia de mim. Quando me converti, minha mudança foi rápida, intensa, quase radical demais para quem ainda estava aprendendo a andar com Cristo. Eu vinha de uma vida completamente distante de qualquer referência de pureza. As roupas, as palavras, os ambientes, as escolhas… nada em mim parecia ter qualquer semelhança com Jesus. E quando o Senhor me resgatou, fui tomada por uma mistura profunda de amor e vergonha. Amor por ter sido alcançada. Vergonha por tudo que eu havia sido.
Eu era uma daquelas pessoas que, logo nos primeiros meses de igreja, olhava ao redor e pensava: “a oração do pastor com certeza é mais poderosa que a minha”, “aquela irmã é mais santa do que eu… aposto que o passado dela é limpinho”. Eu vivia uma comparação silenciosa e cruel: “você não fez o que eu fiz; logo você é mais santa do que eu.” Acreditava que existiam níveis de santidade, como se alguns cristãos já tivessem alcançado um lugar mais alto na presença de Deus, sabe? Mal sabia eu que a igreja é feita de pecadores alcançados pela mesma graça, todos dependentes da mesma cruz, igualmente necessitados de misericórdia.
Sem perceber, passei a acreditar que ser santa significava me tornar o oposto exato da antiga versão de mim mesma. Se antes eu era expansiva, agora deveria ser contida. Se antes minhas roupas chamavam atenção, agora eu deveria ser quase invisível. Se antes minha linguagem era descuidada, agora eu precisava ter um vocabulário “crentês”. Eu morava no interior de Pernambuco naquela época, e a régua da espiritualidade parecia muitas vezes estar ligada ao que era visível. Um short (ainda que modesto) podia ser interpretado como sinal de mundanismo. Uma saia longa, como evidência de consagração. E eu realmente acreditei que minha santidade poderia ser medida por essas marcas externas.
Hoje percebo que havia zelo ali, sim, mas também havia medo. Um medo ingênuo de voltar a ser quem eu era. Medo de decepcionar Aquele que me salvou. Medo de que a antiga Mayara estivesse apenas adormecida, esperando uma brecha – um velho eu que insiste em tentar ressurgir. Na tentativa de nunca mais me afastar de Deus, comecei a construir cercas. Regras. E, quase sem notar, confundi santidade com controle.
Por falta de conhecimento e um pouco de imaturidade, eu acreditava que santidade era aquilo que eu ainda precisava fazer por Deus. Como se fosse uma dívida a ser paga. Como se Jesus tivesse aberto a porta da salvação, mas a permanência ali dependesse da minha performance espiritual. Só que a Escritura nunca apresenta a santidade como uma obra que parte de nós. Pelo contrário, em Hebreus 10:10 lemos que fomos santificados mediante o sacrifício de Jesus Cristo, oferecido de uma vez por todas. A santificação começa na cruz. Ela nasce da obra consumada no Calvário, não do esforço contínuo para merecê-la.
Paulo escreve em 1 Coríntios 1:30 que Cristo Jesus se tornou para nós sabedoria da parte de Deus, justiça, santificação e redenção. Isso muda completamente o eixo da conversa. Cristo não apenas ensina sobre santidade; Ele é a nossa santificação. A base da nossa vida santa não está no que fazemos para Deus, mas no que Deus fez por nós em Cristo. A justificação vem antes da transformação visível. Somos declaradas justas por causa de Jesus e, a partir dessa nova identidade, começamos a ser moldadas. Confesso: a Mayara do passado exulta de alegria com essa verdade. Chega de falsa performance. Ufa.
Se no início eu via a santidade como algo inalcançável, eu não estava totalmente errada. De certa forma, ela é mesmo: se eu tentar alcançá-la com minhas próprias mãos. Só Cristo viveu a santidade perfeita. Só Ele é, em essência e totalidade, Santo. Quando lemos em 1 Pedro 1:15-16 “sede santos, porque Eu sou santo”, não estamos diante de um chamado à auto exaltação espiritual, mas de um convite à imitação daquele que nos chamou. O padrão não é uma lista de regras. O padrão é o próprio Deus. E ninguém imita Deus por força de vontade; imitamos a Cristo à medida que caminhamos com Ele. Santidade é fruto de relacionamento.
Talvez você tenha percebido que comecei falando sobre o que santidade não é. Fiz isso de propósito. Foi assim que eu aprendi: precisei desaprender antes de aprender.
Ser santa é, antes de tudo, ser separada para Deus. Não separada do mundo por medo, mas separada para Deus por amor. Há uma diferença enorme entre fugir do passado por pavor e caminhar em novidade de vida por convicção. No começo da minha conversão, eu estava tentando me distanciar da antiga versão de mim mesma. Hoje entendo que o chamado de Jesus para todos os seus discípulos é torná-los cada vez mais parecidos com Ele.
E aqui está algo que precisamos lembrar: enquanto estivermos neste mundo, essa obra será progressiva. Paulo fala em 1 Coríntios 15 sobre o corpo glorificado, uma realidade que pertence à eternidade. Hoje ainda lutamos contra a carne. Ainda gememos. Ainda enfrentamos nossas fraquezas. A plenitude da santidade nos espera na glória, quando finalmente seremos conformadas de maneira perfeita à imagem de Cristo.
Vivemos, então, nessa tensão santa: já fomos salvas, estamos sendo santificadas e aguardamos a glorificação. Como ensinou J. I. Packer ao ecoar a tradição reformada, mesmo o santo mais amadurecido permanece, nesta vida, um pecador justificado. Isso não é licença para o pecado – o próprio Paulo rejeita essa ideia em Romanos 6. A graça não nos autoriza a relaxar; ela nos constrange a viver de modo digno do chamado que recebemos. Mas reconhecer que somos santos em um mundo caído nos mantém humildes, vigilantes e dependentes.
Vigiar e orar não é agir na própria força, é permanecer rendida. É viver consciente de que precisamos do Espírito Santo todos os dias. É crescer e amadurecer na fé. É cair e levantar na força do Espírito Santo. É seguir com graça. É olhar para frente com esperança.
Hoje eu entendo que ser santa não é viver tentando acertar tudo o tempo inteiro, nem carregar o peso constante de regras que prometem segurança espiritual. Santidade é entrega contínua. É confiar que Aquele que nos justificou também está nos santificando e um dia nos glorificará.
Ser santa é viver a partir da identidade restaurada. Não para apagar o passado com performances religiosas, mas para honrar Aquele que nos resgatou. É caminhar com os olhos na eternidade, lembrando que fomos salvas para viver na glória com Cristo.
Porque, no fim das contas, quanto mais de Jesus em nós, mais santidade haverá. Não porque aprendemos a representar melhor o papel de cristãs, mas porque fomos transformadas pelo amor que nos alcançou primeiro.
E que jamais percamos isso de vista. Como escreveu J. C. Ryle em seu livro Santidade, Deus casou a justificação com a santificação. Elas não são a mesma coisa, mas nunca andam separadas. Fomos declaradas justas por meio de Cristo e, a partir dessa nova identidade, seguimos sendo transformadas por Ele, dia após dia, até o dia em que estaremos finalmente com o Senhor.
Que tenhamos sempre o foco na obra de Cristo — no que Ele já fez por nós, no que está fazendo em nós e no que ainda fará plenamente na eternidade — até o dia em que a fé se tornará vista, e a santidade, finalmente, completa.
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