Quando Deus Diz ‘Não’: O que as Escrituras ensinam sobre pedidos negados?
Estamos em uma sociedade que coloca o homem em um pedestal, elevando-o ao papel de protagonista de sua própria história. Ele pode ter o que quiser de forma rápida, graças à velocidade de transmissão das informações. Já no meio eclesiástico, em alguns lugares, se ouve que o Senhor está pronto a conceder todos os desejos do nosso coração por meio da oração.
Mas as Escrituras nos revelam o oposto do que o mundo e algumas igrejas pregam. Nós estamos no teatro de Deus que, em sua soberania, concede-nos tudo conforme a sua vontade. Recebemos a capacidade de pensar e desejar, mas a nós não foi dada autonomia para fazer e alcançar tudo o que quisermos. Nossa pequena história faz parte da Grande Narrativa e aponta para ela e, neste cenário, o “não” tem um propósito.
O texto bíblico ensina que todas as nossas orações não serão respondidas da forma como esperamos. Choro, frustração, mudança de rota, tristeza e sofrimento também fazem parte da vida do crente fiel. Todavia, nem sempre sabemos como lidar com essa realidade; por isso, é importante analisarmos algumas passagens para entender o que as Escrituras afirmam sobre pedidos negados.
Intenções pecaminosas
“Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres.” (Tg 4:3)
Uma das razões de o Senhor não nos conceder aquilo que pedimos está no real motivo pelo qual o almejamos. Somos capazes de mostrar boas intenções, apresentar justificativas plausíveis aos outros de uma forma convincente até para nós mesmos; entretanto, Deus nos conhece no íntimo, sem máscaras. Muitas orações são movidas por inveja, ganância, soberba, vingança, dentre outras motivações, e essas petições não são atendidas.
De Gênesis a Apocalipse vemos Deus buscando resgatar o coração de seus filhos e trazê-los cativos a ele somente. Ele não se importa com a aparência, mas com o coração (1Sm 16.7); nem com uma adoração bonita nos lábios se o coração está longe (Is 29.13). Não basta você orar por algo legítimo se a sua verdadeira intenção é a sua própria glória.
Deus diz “não” com o propósito de educar-nos em relação a ele, a nós e ao próximo. Em relação a ele, nos ensina que nossos desejos têm que estar alinhados à sua vontade soberana. Em relação a nós, ensina-nos que fomos salvos para ter um novo coração, movido pelos valores do reino, por tudo o que é santo, puro e agradável. E em relação ao próximo, aquilo que obtemos em oração deve ser usado para abençoar e edificar, e não para humilhar ou desprezar aqueles que carregam a imagem e semelhança do Pai.
“Deus não nos dá o que pedimos. Ele nos dá o que pediríamos se soubéssemos o que ele sabe.” (Timothy Keller)
Dependência humilde
“Por causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza.” (2 Co 12:8-9)
O grande missionário da história da Igreja, o apóstolo Paulo, teve visões celestiais gloriosas e inefáveis dadas por Deus – o conhecedor de corações – que também lhe colocou um espinho na carne para que não se exaltasse com tudo isso. Paulo orou por três vezes para que o que quer que seja que lhe causava incômodo fosse retirado; porém, teve o pedido negado.
Outra razão pela qual o Senhor diz “não” às orações é para nos manter humildes e aumentar a nossa dependência dele. Há certos desejos que, se satisfeitos, nos distanciariam do Doador, seja por nos tornar autossuficientes, seja porque transferimos a nossa confiança para a dádiva recebida.
Fomos criados para Deus e ele nos é suficiente – tudo o que precisamos encontramos nele. Quando temos um pedido negado, não ficamos desamparados à mercê do destino, mas a maravilhosa graça nos assiste para enfrentarmos a dura realidade que se coloca diante de nós. O “não” de Deus gera em nós a humildade, a consciência de que não somos capazes sozinhos nem autores de nossa própria história.
Em nossa fraqueza, Cristo nos reveste do seu poder e, com ele e por meio dele, somos capazes não apenas de seguir em frente, mas de nos alegrarmos enquanto nossas lágrimas são enxugadas. Podemos não ter o que o nosso coração deseja, mas temos a ele, e isso vale mais do que qualquer oração atendida, pois ele não nos será tirado. Eis a loucura do evangelho: “quando sou fraco, então, é que sou forte” (v.10).
Aquiete o seu coração e lembre-se de que, “Deus prometeu suprir todas as nossas necessidades. O que não temos agora, não precisamos agora.” (Elisabeth Elliot)
Propósitos que vão além de nós
“Adiantando-se um pouco, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres.” (Mateus 26:39)
Os evangelhos de Mateus e Marcos registram que nosso amado Senhor e Salvador Jesus Cristo fez essa oração por três vezes e não teve o cálice afastado de si. Não é possível dimensionar o tamanho do sofrimento, pois foi o peso de todos os pecados, de todos os eleitos de todos os tempos, ali, de uma vez, sobre um Homem só.
A última lição que aprendemos sobre pedidos negados é que o Senhor tem propósitos que vão além de nós. A oração do Filho recebeu um “não” do Pai para que todos os demais filhos recebessem um “sim”. Cristo sofreu todo o peso da ira divina relativa a todos os pecados, de todos os eleitos, de todos os tempos, para que esses escolhidos pudessem desfrutar da graça e do amor sem medidas.
Jesus conhecia o plano que ele mesmo arquitetou e, ainda assim, não foi fácil executá-lo. Pediu por alívio, ao mesmo tempo em que, resignado, se submeteu totalmente à vontade do Pai. Portanto, ele conhece exatamente os dilemas que enfrentamos e nos concede sua doce companhia e consolo (Hb 4.15-16).
Muitas vezes nossas vontades serão sacrificadas em prol de algo grandioso que sequer somos capazes de visualizar. O pedido negado nos traz dor e sofrimento, mas resulta em bênçãos para o Reino de Deus e para nós também. Lembremo-nos que Aquele que foi humilhado na cruz, foi exaltado e está à direita do Pai. Sua experiência nos traz a esperança de que a aflição não é em vão nem dura para sempre. Aleluia!
Seguindo em frente
“Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o SENHOR; pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais.” (Jr 29.11)
O “não” demonstra cuidado. Ele pode nos alertar para um coração que tem se enveredado por caminhos pecaminosos, nos levar para mais perto do Senhor em dependência e humildade, bem como apontar para um plano muito melhor e maior do que conseguimos imaginar.
Como vimos, não somos as únicas pessoas do mundo para quem Deus diz “não”, ao contrário do que a voz de Satanás sussurra aos nossos ouvidos sempre que temos nossos desejos não satisfeitos. Deus não deixou de nos amar. O fato de o Soberano gastar tempo respondendo à oração de uma partícula na imensidão do universo, como eu e você, revela o quão preciosos somos aos seus olhos. Você é amado pelo Deus que te vê!
Não sabemos o que nos reserva a agridoce providência, mas de uma coisa estamos certos:
“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” (Romanos 8:28)
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