Quando Deus Diz ‘Não’: Histórias de pessoas bíblicas que ouviram um “não”

Se você soubesse o que Deus sabe, pediria exatamente o que Ele dá.” Essa frase do teólogo Tim Keller tem ressoado em minha mente nessas últimas semanas. Ela reflete a soberania de um Deus que sabe de todas as coisas e faz com que elas cooperem para o bem daqueles que O amam (Romanos 8:28). Tenho refletido sobre o que eu tenho pedido a Deus em oração, o que meu coração tem desejado e o que meus planos têm buscado alcançar. Afinal de contas, Ele nos chama a nos achegar ao trono da graça com ousadia (Hebreus 4:16), como uma criança chega a seu pai amoroso. 

Ainda de Tim Keller: “a única pessoa que ousa acordar um rei às 3 da madrugada pedindo um copo de água é seu filho. Nós temos esse tipo de acesso.” Pensando de uma maneira lógica, conseguimos rapidamente chegar à conclusão de que independente das circunstâncias, sejam orações respondidas tanto positivamente quanto negativamente, estaremos seguras e no melhor dos lugares: protegidas sob as asas de Deus. Existe, porém, algo em nós que nos separa dessa confiança na bondade do Pai. 

Quero trazer aqui exemplos famosos nas Escrituras de pessoas que tiveram que engolir um “não”. O meu desejo é que analisemos juntas quais foram suas posturas em relação a essa dissonância entre o desejo de seus corações e a vontade de Deus para suas vidas. Vamos começar com Moisés, quando sua entrada na Terra Prometida foi negada. 

Você já visitou um país estrangeiro e experimentou aquele frio na barriga ao passar pela imigração? O frio na barriga de Moisés foi ainda maior ao ouvir diretamente de Deus que sua entrada na terra para onde ele foi chamado para levar o povo foi proibida. Leite e mel provavelmente estavam em sua mente há tempos e ele mal podia esperar para tomar posse dessa nova casa que Deus tinha prometido – um lugar onde o povo finalmente descansaria depois de nada menos que quatrocentos anos servindo como escravos no Egito. Moisés, apesar de seu passado marcado por um homicídio, foi escolhido para liderar esse povo para fora da escravidão; mas infelizmente ele desobedece a Deus quando Ele o manda falar à rocha para prover água para o povo e, em vez disso, sua ira o leva a feri-la duas vezes. A água jorra, mas também jorra disciplina da boca do Senhor. Vemos em Números 20:12: “Mas o Senhor disse a Moisés e a Arão: Visto que não crestes em mim, para me santificardes diante dos filhos de Israel, por isso, não fareis entrar este povo na terra que lhe dei” (grifo meu). Quando finalmente chegaram à terra, o Senhor disse a Moisés em Deuteronômio 34:4: “Esta é a terra que, sob juramento, prometi a Abraão, a Isaque e a Jacó, dizendo: À tua descendência a darei; eu te fiz vê-la com os teus próprios olhos, porém não passarás para lá.” Moisés, escritor do Pentateuco, nem se dá ao trabalho de registrar ali suas emoções. Ele engoliu aquele “não” a seco. Já havia deixado de crer no poder de Deus antes e não seria agora que deixaria de crer novamente. Moisés olha para a terra prometida de longe e recebe do Senhor o fim dos seus dias ali naquele monte. 

E Davi? Enquanto aproveitava de seu palácio, desejou em seu coração construir um Templo para a arca da aliança. O profeta Natã porém traz a resposta de Deus a ele: “Quando teus dias se cumprirem e descansares com teus pais, então, farei levantar depois de ti o teu descendente, que procederá de ti, e estabelecerei o seu reino” (2 Samuel 7:12). Deus não estava punindo o rei Davi, mas simplesmente escolhendo Salomão, seu filho, para que desse cabo à construção do Templo. Davi tinha as condições, a inteligência e tudo o que fosse preciso, mas ainda assim, Deus disse “não”. A segunda parte do capítulo 7 de 2 Samuel mostra palavras de ações de graças do rei Davi. Apesar de desejar executar esse plano, ele sabia que para além dos seus desejos existe um Rei que está sobre todos os reis da Terra, que tem a soberania e a palavra final. Davi confiou em Sua bondade. 

No Novo Testamento, encontramos Paulo de Tarso. Homem versado, que parece não descansar. Quando inimigo da cruz, trabalhava arduamente para que os cristãos não tivessem paz. Quando redimido pelo sangue dessa cruz, trabalhava arduamente para que a mensagem dela fosse disseminada pelos povos de diversos países, escrevendo cartas às igrejas, discipulando e enviando Timóteo, fazendo viagens missionárias, aguentando a prisão e de lá escrevendo e louvando. Acontece que esse homem incrível tinha um espinho na carne. Espinho que o incomodou o suficiente para que Paulo suplicasse três vezes a Deus para que Ele o retirasse. Paulo, porém, apesar da dor e inconveniência desse espinho (possivelmente sendo algo físico relacionado à sua visão), ouve do Senhor as seguintes palavras: “A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Coríntios 12:9). Paulo podia ver o outro lado da moeda. Aquela dor o mantinha humilde diante da grandeza das revelações que lhe foram conferidas. Por isso, de bom grado ele as recebe, e não somente isso, mas ele passa a se gloriar em suas fraquezas, sabendo que elas, ainda que doam, o levarão a ser mais como Jesus Cristo (verso 9). 

Nosso último exemplo é nada mais nada menos que nosso Senhor Jesus Cristo. No jardim do Getsêmani, enquanto vive a antecipação da crucificação, Ele, chorando, pede ao Pai que passe dele o cálice do sofrimento e da morte. Enquanto o pior dessa ocasião era a separação de Jesus da Trindade Santa, lemos em Isaías 53:3 que Ele foi homem de dores, que sabe o que é padecer, e sabe que padecer dói. Ele padeceu na cruz de maneira voluntária, recebendo o cálice da morte, e não há nenhum “não” mais pesado de carregar do que essa separação. Porém foi esse mesmo “não” que nos trouxe vida, e vida abundante. Aqui e para a eternidade. “…Todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mateus 26:39). Foi assim que Jesus terminou Sua oração ao Pai antes da cruz. Desde que o Senhor fosse glorificado através da cruz, Ele estava disposto a ser pregado nela. 

O que nos impede hoje de vivermos como Davi, Moisés, Paulo e Jesus Cristo, confiando plenamente na bondade do nosso Pai, mesmo quando a resposta é um “não” doloroso, mesmo para desejos aparentemente bons? Aqui está:  Deixamos de crer que a cruz realmente nos basta. 

Precisamos da cruz, mas também de nos tornarmos mães. 

Precisamos da cruz, mas também de acharmos um marido que nos ame imensamente.

Precisamos da cruz, mas também de um emprego que pague mais do que necessitamos.

Precisamos da cruz mas também de sermos respeitadas e honradas por onde formos.

Precisamos da cruz, mas também…

Recentemente ouvi de uma mãe, bem próxima a mim, que, ao descobrir o diagnóstico de que seu bebê não tinha sido formado no útero como deveria, pediu ao Senhor o que toda mãe pediria: a cura. Ela suplicou e suplicou, e finalmente ela, ao invés de pedir a cura, pediu que o Senhor a mostrasse se Seu desejo era curá-lo ou não. De uma maneira muito simples, buscando pelo sinal de Deus, ela sai lá fora, coração batendo forte, a esperança ainda latente, para entender que recebeu das mãos dEle, um “não”. Ela volta então para dentro de casa, o coração ainda batendo forte, mas dessa vez experimentando, além do “não”, uma paz sem medidas. “Agora eu entendo que Ele não vai curá-lo. Vamos amar nosso bebê como ele é, mesmo que seja difícil. Deus é soberano sobre todas as coisas”— foram suas palavras.

Você crê que em Jesus Cristo temos promessas verdadeiras e bênçãos mais valiosas do que podemos contar?. “…como Deus é fiel, a nossa palavra para convosco não é sim e não. Porque o Filho de Deus, Cristo Jesus, que foi, por nosso intermédio, anunciado entre vós, […] não foi sim e não; mas sempre nele houve o sim. Porque quantas são as promessas de Deus, tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para glória de Deus” (2 Coríntios 1:18-20). É em Cristo que temos o sim e o amém. Que ao enfrentarmos “nãos” de Deus, nossa resposta seja: “Desde que o Senhor seja glorificado, que se faça o Seu querer”. 

Para quando a dúvida de que Deus tem o melhor para você, mesmo em meio ao silêncio ou a pedidos negados, guarde em seu coração e lembre-se desse versículo: 

“Porque o Senhor Deus é sol e escudo; o Senhor dá graça e glória; nenhum bem sonega aos que andam retamente”. Salmos 84:11


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