Quando Deus Diz ‘Não’: Aprendendo a lidar com a frustração
Você certamente já viu uma cena parecida com essa: em local público, no meio de um grande grupo de pessoas, uma criança se joga no chão e começa a gritar, chacoalhar os braços e bater os pés no chão, enquanto um adulto próximo tenta lhe dar o comando de silêncio, já sem paciência e possivelmente com muita vergonha dos olhares que está atraindo com essa interação nada bem sucedida com o pequeno ser em crise. Muitos chamam de birra, mas eu também poderia chamar de “ataque de frustração”, e os motivos podem ser dos mais simples (hora de ir embora do parquinho) aos mais difíceis (quando o sorvete cai no chão).
Como adultos, não temos a permissão social para nos jogarmos no chão quando nos frustramos com alguém ou alguma situação, mas acabamos descarregando de outras formas, como batendo a porta do quarto ou do carro, elevando o tom de voz, buscando isolamento ou, nos casos mais extremos, praticando a violência contra o próximo. Infelizmente, a hora de ir embora do parquinho ou o sorvete caído no chão são problemas pequenos quando observados do prisma adulto, mas, será que nosso divino Pai também não enxerga nossos problemas como pequenos, diante de Seu prisma eterno e espiritual? Ainda assim, Ele nos trata com bondade e misericórdia.
Lidar com frustrações é uma das tarefas mais difíceis que o ser humano enfrenta em sua vida emocional, e eu acredito que seja uma das maiores fraquezas dos cristãos também, especialmente em uma época em que se tornou tão comum reivindicar direitos e bênçãos, como se Deus fosse um mero gênio da lâmpada, que vive pronto a atender nossos desejos, ou um deus à nossa imagem e semelhança, com os mesmos sonhos, desejos e motivações que nós. Sejamos honestas: quando Deus responde não, seja para um emprego desejado ou para a cura da pessoa que amamos, nossa resposta natural costuma ser “sim” ou “por que não?”, tal como uma adolescente que gosta de testar a autoridade dos pais?
Recebendo um diagnóstico preciso: uma ressonância do coração
Refletindo sobre esse assunto, recorri muitas vezes ao livro de Rodrigo Bibo, “O Deus que destrói sonhos”. Logo na introdução, levamos um choque: “este livro não é sobre os seus planos destruídos e como a mão de Deus irá livrá-lo do vale. Este livro é sobre a vontade de Deus e como ele pode destruir os seus sonhos!” Eu não sei sobre você, mas essa verdade doeu aqui em mim. O convite de Cristo não é sobre realização de sonhos e planos, mas de carregar uma cruz enquanto O seguimos.
“Jesus dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo, dia a dia tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá; e quem perder a vida por minha causa, esse a salvará. De que adianta uma pessoa ganhar o mundo inteiro, se vier a perder-se ou causar dano a si mesma?” (Lucas 9: 23 a 25)
Bibo continua a nos jogar um balde de água fria (que nos acorda, e também estremece): “O pai que ama vai disciplinar seu filho, mesmo que isso faça com que o pai pareça cruel no momento. Deus, como pai amoroso, age da mesma forma (Hebreus 12), e quem se submete à sua disciplina, isto é, torna-se seu discípulo, tem seus sonhos e ambições transformados. Às vezes, destruídos mesmo. E devemos louvá-lo por isso, pois uma vida só encontra sentido na realização de um ‘sonho’ se este contempla a glória de Deus.”
Minha querida, ao fazer uma ressonância espiritual do nosso coração, recebemos sempre o mesmo diagnóstico: ainda há sonhos e desejos que estão em desacordo com o Senhor. Deste lado da eternidade, viveremos sempre nos frustrando com pessoas, situações e com nossos próprios desejos. A presença do pecado é, por si só, uma frustração, pois escancara que não somos fortes o suficiente para viver em santidade. Há uma força espiritual muito maior do que a nossa força de vontade, que só é vencida pelo sangue de Cristo; para isso precisamos submeter, vez após vez, nosso coração ao Senhor, que é um Mestre exímio em transformar cinzas em alegria.
Escrevo como quem ainda está processando essa verdade: não temos um Deus focado em nos fazer felizes. Temos um Pai que não mediu esforços para nos amar e nos resgatar do poder do pecado. Quando nossos sonhos morrem, devemos refletir que a cruz é também um símbolo de morte e dor, mas que transborda amor puro e redentor. A morte das nossas expectativas nos faz vislumbrar um céu e uma eternidade em que a presença de Jesus não disputa lugar com ninguém, é o próprio Sol da Justiça (cf. Ml. 4:2) nos satisfazendo e enchendo a vida de propósito, verdade e alegria.
Como seguir em frente?
Ok. Você e eu nos frustramos. Um sonho morreu, uma chama de esperança acabou de ser apagada. Já entendemos que o Senhor é soberano, Sua vontade é perfeita, Seu agir é por amor e para nos resgatar do poder do pecado e que devemos viver satisfeitos com Sua presença. Mas, como seguir em frente, falando de forma prática? Tenho alguns conselhos, inspirados em personagens bíblicos:
1) Ore e levante-se: quando esperamos e ansiamos por algo genuinamente bom, e a resposta parece ser “não” ou “espere”, podemos aliviar a frustração ao derramar nossa alma perante o Senhor, depositando nossa ansiedade e aflição, e nos levantando para continuar a vida. “Então [Ana] seguiu o seu caminho, comeu alguma coisa, e o seu semblante já não era triste”. (1 Samuel 1:18)
2) Entregue e confie: tal como um passageiro que adormece enquanto o motorista segue viagem, descanse no Senhor, pois Ele conhece a rota que a levará ao destino de paz, alegria, cura e justiça. Não tente sentar no banco do motorista e segurar o volante, pois isso só atrasará o trajeto. Entregue, confie, durma, descanse, e se preciso for, vá até o banco da frente para contemplar que o nosso Pai continua no controle, sem dormir ou pestanejar. Ele continua fielmente agindo em sua vida e em sua causa. (Salmo 37:5)
3) Observe e aprenda com o caminho: portas fechadas também são proteção do Senhor, livramentos de perigos, formas de Ele nos preservar de males que estão fora de nosso campo de visão, ou simplesmente uma forma de Ele nos direcionar para o que realmente está de acordo com Sua bendita vontade. Na vida do apóstolo Paulo foi assim, quando ele tentou ir à Bitínia (Atos 16:6-10). Ainda que fosse pelo desejo nobre de propagar o Evangelho, o Senhor o impediu de seguir para naquela direção. Muitas vezes passamos por algo parecido, quando desejamos fazer algo genuíno na obra do Senhor, mas ficamos frustrados com um alto e sonoro “não”. Tão importante quanto obedecer a esse comando é permanecermos atentas à voz do Senhor, por meio de Sua palavra, a fim de recebermos um redirecionamento. Nem sempre teremos respostas ou justificativas, mas podemos seguir em frente porque o Senhor não falha em seus propósitos. Frustradas sim, estagnadas nunca!
4) Faça perguntas para você mesma: o que será que essa frustração está tentando ensinar sobre meu coração? Por que será que fiquei tão frustrada? Qual era realmente a motivação que eu tinha? Onde coloquei minha esperança: no resultado ou no Senhor? Após essa autoanálise, ore a Deus, entregue seus sentimentos conflitantes e seus pensamentos confusos e peça a Ele que troque a frustração pela paz que excede o entendimento (Filipenses 4: 6 e 7).
Termino com mais uma citação de Rodrigo Bibo, para te encorajar a seguir em frente, pois estamos todas em processo de santificação, inclusive de nossos sonhos, desejos e planos:
“É sempre importante lembrar que somos alunos nessa escola de Cristo. Mesmo os discípulos que andaram com Jesus e viram todos os milagres da sua obra tiveram fraquezas e nem sempre acertaram. Pedro, por exemplo, agiu de forma hipócrita, sendo censurado por Paulo, o qual, aliás, admitiu ser o maior dos pecadores. Então, nunca se esqueça dessa nossa condição de aprendiz e saiba que Deus não desampara um coração arrependido. Como ouvi certa vez: ‘Ser discípulo de Jesus é, acima de tudo, estar aos pés de Cristo’.”
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