Quando a Chama (Quase) se Apaga (Sobre Burnout)

O mundo cada vez mais globalizado e tecnológico em que vivemos ao mesmo tempo em que facilita nossa vida, pode nos envolver e nos sobrecarregar cada vez mais com as demandas crescentes que surgem. A possibilidade de realizar atividades de maneira facilitada traz consigo a oportunidade de fazer mais. O aumento da produtividade pode desencadear também em uma crescente do estresse, da cobrança, da necessidade de bater metas ou riscar tarefas da lista do dia. Tudo isso pode levar ao esgotamento – e é sobre ele que vamos falar.

De acordo com o Ministério da Saúde, “Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional é um distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico resultantes de situações de trabalho desgastantes, que demandam muita competitividade ou responsabilidade. A principal causa da doença é justamente o excesso de trabalho.”

Desde o início da pandemia esse é um assunto que tem estado em voga, estampando matérias jornalísticas e sendo motivo de pesquisas. Fala-se principalmente sobre o esgotamento dos profissionais da área da saúde, envolvidos em uma rotina frenética de plantões e escalas; bem como daqueles que migraram para o home office e acabaram tendo dificuldades para estabelecer tempo de trabalho e de descanso. Não se restringindo a esses grupos, a Síndrome de Burnout pode atingir qualquer pessoa que tenha um ritmo intenso de atividades, seja o médico, a dona de casa ou o estudante.

O intuito desse texto não é te dar um diagnóstico, algo que somente profissionais da área psicológica devem fazer, mas falar sobre um problema cada vez mais crescente, te estimulando a analisar áreas de sua vida e tratar disso à luz das Escrituras. Caso esteja sobrecarregada, minha oração é para que o Senhor te renove, minha irmã.

Sinais de alerta

A imagem usada pelos estudiosos do assunto para definir o burnout é a de um palito de fósforo que queima até o fim. No livro “Refresh” a médica Shona Murray diz que, “Há uma razão para o esgotamento ser chamado no inglês, de burnout (burn significa queimar): o estresse provoca uma inflamação crônica, uma espécie de fogo em nossas células que se torna mais quente e queima por mais tempo à medida que vamos alimentando-o com nossa vida agitada.”

         Os sinais de alerta para esse problema podem variar, pois cada indivíduo é único, mas vamos dividir os mais comuns em físicos, mentais e emocionais. Os indícios físicos podem ser dores de cabeça e/ou em diferentes partes do corpo, palpitação, pressão alta, sono em excesso ou a falta dele, e letargia. Já os sintomas mentais podem ser esquecimento, inércia (quando você sabe o que deve fazer, mas se sente paralisada), falta de foco, e dificuldade para concentrar. Quanto às emoções, você está sempre irritada, sem paciência, chora com facilidade, sente tristeza sem motivo, vive preocupada, e beira a exaustão.

É preciso levar em consideração que o simples fato de apresentar alguns desses sintomas não deve necessariamente nos deixar alertas. Precisamos ter em mente que todos passamos por momentos difíceis, pois vivemos em um mundo afetado pelo pecado em que coisas ruins acontecem. Além disso, é preciso avaliar a quantidade, a intensidade e a  frequência dessas manifestações. Se forem constantes, acentuadas e sem motivo aparente, talvez seja prudente prestar mais atenção a elas.

Uma vez que o burnout tem reflexos não apenas no corpo, mas também na mente e nas emoções, é preciso buscar soluções que alcancem todas as áreas afetadas.

Reacendendo a chama

         Quando paramos para refletir sobre o que nos levou ao esgotamento e quais motivações nos guiaram, chegamos a uma autoimagem distorcida e a um coração desalinhado.

Fomos criados à imagem e semelhança de Deus e, embora estejamos sujeitas à ação do pecado, pela obra perfeita de Jesus somos filhas amadas, perdoadas e salvas. O que te estimula a trabalhar exaustivamente para alcançar uma promoção? Passar noites sem dormir estudando para uma prova? Dar conta de todos os afazeres de casa em um único dia? Fazer várias atividades ao mesmo tempo? Não seria talvez o pensamento de que se você alcançar essas coisas finalmente será reconhecida, ou se tornará uma pessoa melhor, ou “alguém na vida”? 

Essas coisas não te definem. Cristo te define. Descanse e se aproprie dessa verdade.

Nosso propósito é glorificar a Deus e nos alegrarmos nEle para sempre. Nós damos glórias quando reconhecemos quem Ele é e quem somos nós. Deus é infinito, soberano, onisciente, onipresente, onipotente, eterno. Essas características pertencem a Ele somente. Não podemos realizar todas as tarefas ao mesmo tempo, estar em todos os lugares, abraçar e controlar todas as coisas. Somos criaturas limitadas, finitas e falhas.

         Se à primeira vista reconhecer esses fatos te traz frustração, à medida que reflete por mais tempo você percebe que o fardo que coloca sobre si mesma vai ficando mais leve. Você não precisa fazer tudo, minha irmã, simplesmente porque não foi criada para isso.

“É útil refletir em como Cristo experimentou a limitação. Como Deus, ele nunca conheceu nenhuma limitação. Como homem, ele experimentou todas as limitações humanas naturais. Se Cristo aceitou esse tipo de mudança em suas limitações, por que nós não aceitaríamos? A aceitação e a submissão às nossas limitações deveriam levar-nos para mais perto de Cristo” (Shona Murray em “Refresh”).

O burnout deixa a mente atormentada por pensamentos distorcidos sobre a realidade e sobre Deus. Não se consegue pensar de maneira racional ou enxergar os fatos como eles são, perde-se o foco na leitura bíblica e o poder de concentração no momento de oração.

         O Evangelho de Lucas no capítulo 10 narra a história das irmãs Marta e Maria. Jesus hospedou-se na casa delas e, enquanto Marta corria de um lado para outro dividida entre muitos serviços, Maria sentou-se aos pés do Mestre para ouvi-Lo. Marta queixou-se Senhor, não te importas de que minha irmã tenha deixado que eu fique a servir sozinha? Ordena-lhe, pois, que venha ajudar-me” (v. 40). Ao que Ele respondeu: “Marta! Marta! Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. Entretanto, pouco é necessário ou mesmo uma só coisa; Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada” (vv. 41,42).

         Marta nos ensina que muitas vezes despendemos nossa energia de forma errada. Os afazeres domésticos continuariam na casa dela, mas o Mestre não. A prioridade seria parar para dar atenção a Ele, como Maria fez. O Senhor não quer que nos esgotemos de tanto trabalhar, mas que façamos escolhas sábias, que paremos para ouvi-Lo e para falar com Ele, por meio da leitura bíblica e da oração.

Mantendo a chama acesa

         Além de realinhar o coração e ajustar as lentes para uma visão correta de quem Deus é e quem nós somos, seguem algumas dicas, em ordem alfabética, e não de relevância, que podem te ajudar a superar o esgotamento..

  • Boa alimentação. Um corpo bem nutrido trabalha melhor. Priorize alimentos saudáveis que te fornecerão energia e preservarão sua saúde.
  • Desacelere. Avalie o essencial a ser feito, estabeleça prioridades, assuma menos responsabilidades. Aprenda a dizer “não” para algumas demandas.
  • Descanse. Não sacrifique o momento de dormir, não despreze boas horas de sono. Tenha momentos de lazer, tire férias, desligue o celular. Deus fez o mundo em seis dias e descansou no sétimo, não tente ser superior a Ele trabalhando sem pausas.
  • Faça atividade física. Pratique um esporte. Há uma gama variada de atividades para todos os gostos, certamente alguma se encaixa no seu perfil. Seu corpo precisa ser cuidado e o estresse liberado.
  • Leia bons livros. Ocupe sua mente com leituras de qualidade que podem te ajudar a entender melhor o problema e apontar boas soluções. Leia também temas variados para dar um alívio à sua mente.
  • Procure ajuda de um profissional. Não tenha medo ou vergonha de pedir ajuda, não se sinta inferior ou menos crente. O Senhor nos trata também através de pessoas.
  • Tenha alguém com quem conversar. Pessoas próximas são muito importantes nesse processo, seja para desabafar, obter conselhos ou prestar contas.

Enquanto outros correm atrás de troféus que têm valor apenas nessa vida, que possamos viver com vistas à eternidade, desacelerando o passo e vivendo conforme o Senhor espera de nós.

No início do texto eu disse que o burnout é como um palito de fósforo sendo consumido pela chama, até se apagar. Sabe nos aniversários quando a criança assopra a vela e fica estalando os dedos para que ela acenda novamente? Jesus pode fazer o mesmo com você. O profeta Isaías diz a respeito dEle:

Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a chama que já está fraca” (Mt 12.20).

Há esperança. Cristo traz vida. O Senhor pode recarregar sua bateria, para que a sua luz brilhe entre os homens e glorifique ao Pai que está nos céus (Mt 5.16).


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