Equilíbrio entre tolerância e pregação da verdade

Durante minha vida escolar inteira, me esforcei para ser uma cristã exemplar. Apesar de falhar em diversas situações e dar mau testemunho, eu sabia que tinha essa responsabilidade. Fui ensinada que a frase “você nem parece cristã” era algo terrível e um sinal de alerta para minhas atitudes, e segui pensando dessa forma até meus anos como universitária.

Então, entrei para um curso de graduação em comunicação social, em uma faculdade com forte influência política extremista, e minhas bases foram estremecidas. A quantidade de discursos ideológicos, vindo de colegas e professores, me fez questionar muito do que eu aprendi nas classes de estudo bíblico durante a vida inteira. Imagine o choque de realidade! Creio que foi aí que começou a revolução em minha fé que era muito teórica e cheia de regras. Eu pouco questionava a respeito do que me ensinavam. Quase não lia a Bíblia de forma espontânea, muito menos com o intuito de me aprofundar nas bases doutrinárias. Não é de surpreender que os 4 anos de faculdade de Jornalismo quase me transformaram em uma “militante cristã”, cheia de vontade de corrigir os erros que a “igreja” causou no mundo (convém frisar que se tratava de um pensamento imaturo e direcionado a alguns membros da igreja que falharam, não a igreja em sua essência).

Graças às misericórdias infinitas do Senhor e à paciência que Ele sempre tem com Seus filhos mais “trabalhosos”, posso olhar para esse passado recente com admiração. Eu poderia ter abandonado a fé, mas posso dizer que hoje amo ainda mais a Palavra, o Evangelho e, principalmente, o Deus que me resgatou. Também desenvolvi um carinho especial por amigos que militam causas com as quais eu não concordo e também por irmãs e irmãos que estão distantes do Senhor. Eles necessitam desesperadamente da graça, do amor e do perdão do Pai, que um dia me resgataram, e isso me impulsiona a amá-los ainda mais.

Por isso, vim aqui conversar com você sobre tolerância e pregação da Verdade. A linha que divide questionamentos sinceros do abandono da fé é tênue e precisamos de auxílio do alto para seguir em frente. Vamos juntas?

Buscando o equilíbrio pela Palavra

De forma geral, acho extremamente positivo que a identidade cristã não esteja limitada a discussões que chamamos de eclesiásticas (sobre a igreja e as doutrinas). É muito bom ver a igreja falando sobre temas que ultrapassam os muros de nossos templos e marcam a realidade de nosso tempo, como racismo, abusos, desestrutura familiar, aborto, feminismo, intolerância religiosa, entre outros.

A Palavra nos dá liberdade para falar sobre esses assuntos não só para evitar a alienação, mas para que o testemunho do amor de Deus alcance a todos, independente de suas crenças. Paulo exortou os cristãos efésios a respeito disso quando falou sobre a armadura de Deus e seu uso poderoso na luta contra as ciladas do inimigo. Após descrever cada item da armadura, ele termina pedindo orações: “para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra com confiança, para fazer notório o mistério do evangelho”. (Efésios 6:19)

Paulo falava a públicos diversos e não tinha medo de tratar questões polêmicas, como acepção de pessoas. Este grande herói da fé foi morto por defender a Verdade, inclusive perante aqueles que diziam defender o nome de Deus.

A questão é: em nossos dias, como falar sobre assuntos polêmicos, muitos dos quais são avessos à mensagem do Evangelho, sem contrariar a fé? Como tolerar algumas discussões sem ofender opiniões contrárias e, ao mesmo tempo, pregar a Verdade? A resposta é: amando a Palavra e submetendo-se a ela, e amando as pessoas, como Jesus nos ordenou.

Precisamos estabelecer alguns princípios bíblicos:

  • Deus é amor: 1 João 4:16
  • NEle não há resquícios de injustiça:“o Senhor ama o juízo” Salmos 37:28
  • A Palavra é inerrante, ou seja, não contém equívocos que precisam ser corrigidos por estudiosos: “as palavras do Senhor são palavras puras, prata refinada em cadinho de barro, depurada sete vezes” Salmos 12:6; “A lei do SENHOR é perfeita” Salmos 19:7; “Toda palavra de Deus é pura” (Provérbios 30:5)
  • A Verdade pura e perfeita só é encontrada e fundamentada em Jesus: “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” João 14:6

Por crer que a Bíblia é a revelação do Deus de amor e justiça, podemos fincar os alicerces de nossa fé no que foi revelado por meio dela. Consequentemente, essa fé nos proporciona a submissão necessária para guiar toda a nossa vida com base nas verdades que ali estão.

A mensagem da Bíblia deve ser aceita como um todo, e não como um compilado de doutrinas eletivas. Isso implica em se deleitar com os trechos que falam de amor, perdão e um futuro de paz com Deus, mas também se submeter ao confrontamento sobre nossos pecados. Não podemos escolher a parte que gostamos e jogar fora o resto.

Ao torná-la nossa regra de fé e prática, assumimos o compromisso de tomá-la como a bússola que apontará a direção que devemos seguir, mesmo quando vai contra o que desejamos. E também implica em não ir além do que ela mesmo revela, pois há assuntos que o próprio Deus limitou ao nosso entendimento (Deuteronômio 29:29).

No meio teológico, há dois conceitos fundamentais que auxiliam no entendimento das Escrituras, a fim de evitar heresias ou interpretações equivocadas dos textos bíblicos. São eles:

Hermenêutica: estudo dos princípios e métodos de interpretação do texto bíblico. Tem o propósito de auxiliar a interpretar, entender e aplicar a Bíblia corretamente, levando em conta o contexto histórico, o público original, os costumes da época, entre outras coisas. Ela nos ajuda a nos mantermos fiéis ao significado intencionado por Deus, evitando alegorias ou interpretações manipuladas.

Exegese: aplicação dos princípios da hermenêutica para interpretar corretamente o texto bíblico. É a ciência da interpretação que permite extrair o significado do texto, ao invés de agregar um significado a ele.

Se eu pudesse resumir os dois conceitos em um único, diria que qualquer interpretação bíblica deve ser feita por meio de uma exegese fiel aos princípios hermenêuticos. Por levar a Bíblia a sério, devemos ir até ela com o intuito de receber alimento sólido, e não como um fast food.

Querida, meu intuito não é dizer que todas devemos nos matricular em cursos de teologia (apesar de serem excelentes ferramentas para o crescimento na fé). Ao trazer estes conceitos, tenho o desejo de estimular-lhe a tomar para si a responsabilidade de conhecer a Escritura, como Paulo recomenda a Timóteo: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.” (2 Timóteo 2:15)

Com a Palavra escondida em nosso coração, teremos maior facilidade de combater pensamentos, ideologias e atitudes que vão na contramão do plano perfeito de Deus. Ao nos submetermos aos ensinamentos do Pai, iremos adquirir a habilidade de entrar em terras hostis com o intuito de levar os valores do Reino, e não de atacar pessoas ou divulgar a falsa mensagem de que somos um povo melhor do que eles.

Os valores bíblicos são inegociáveis para os salvos e, por isso, devem fazer morada em nossos corações. Somado à ação do Espírito Santo, estaremos protegidas contra o abandono da fé, mesmo quando estivermos sob pressão de amigos, familiares, colegas da faculdade ou do trabalho. Sabemos de quem somos, sabemos quem Ele é e, por isso, temos condições de nos posicionar com ousadia e amor ao próximo. “E estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1 Pedro 3:15)

Tolerante demais x Intolerância cristã

No início do artigo, comentei que a frase “você nem parece cristã” me causava certo medo a respeito do meu testemunho. Hoje em dia, se ouço essa afirmação minha reação é, infelizmente, de alívio. Entenda, irmã. Não sinto alívio em não ser chamada de “pequeno Cristo”, mas de não carregar a imagem negativa que grande parte das pessoas (senão a maioria) tem a respeito do nosso povo. Lamentavelmente, o povo que carrega um nome que, em séculos anteriores, foi motivo de perseguição, hoje tem orgulho de carregar este nome como desculpa para fazer divisão entre o sagrado e o profano. Em uma busca desenfreada pelo que é certo, a fim de compensar o mundo maligno no qual vivemos, muitos de nós estão esbravejando contra pecadores, e não contra o pecado. Tal como Pedro, ao cortar a orelha de Malco para fazer justiça em nome de Jesus, temos nos precipitado em fazer o que Cristo nunca nos ensinou a fazer: guerrear, apontar o dedo, falar verdade à torto e à direito, e virar o rosto para quem discorda.

Do outro lado, também observo diversos de meus irmãos militando por causas que Cristo nunca defenderia. Na ânsia por compensar o erro graves de alguns cristãos (como arrogância e preconceito), tenho visto jovens utilizando as redes sociais para se posicionarem a favor de práticas com raízes pecaminosas, e propagando mensagens que nada tem a ver com o amor sacrificial de Cristo.

Veja bem: quando Cristo se colocou entre os escribas e fariseus e a mulher que adulterou, a fim de intervir no iminente apedrejamento, não era em defesa do adultério que Ele se levantou, mas em defesa da mulher que caiu neste erro. O que isso nos diz sobre nosso Senhor? Ele não defendeu o pecado, longe disso. Ao final desse episódio, Ele diz à ela “Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais” (João 8:11). Cristo morreu pelo ser humano condenado pelo pecado, e não pelo pecado em si.

Estamos vivendo um período de extremismos. Se de um lado crucificamos aqueles a quem deveríamos apresentar o amor de Deus, do outro estamos crucificando membros do mesmo corpo ao qual pertencemos. Quão terrível é esse desequilíbrio!

Minha irmã, precisamos urgentemente correr para a Palavra. Devemos sim combater o pecado. Devemos sim pregar contra o que o Senhor condena. Mas, de forma alguma podemos construir cruzes e jogá-las em cima daqueles a quem Jesus estende a mão.

Devemos sim combater a arrogância espiritual, os discursos preconceituosos e as heresias divulgadas a quatro ventos, em nome de Deus. Mas, de forma alguma podemos atacar nossos irmãos em Cristo, manchando ainda mais a imagem que os cristãos têm perante o mundo.

O desejo de justiça e a intolerância contra o pecado não podem nos levar à guerra contra pessoas criadas à imagem de Deus. Pecado deve ser confrontado e pessoas devem ser amadas, essa é a ordem, pois nossa luta não é contra a carne e o sangue, “mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais.” (Efésios 6:12)

Não nos enganemos: a situação do mundo não tende a melhorar. Estamos em um mundo mal, degenerado pelo pecado e governado por aquele que deseja a nossa morte. Miremos no inimigo correto, então. E lutemos com armas espirituais, mortificando nossa carne, nossas verdades pessoais, nossas opiniões, em prol do crescimento do Reino que propaga uma mensagem de arrependimento, mas principalmente de amor eterno e divino. Um Reino que convida a todos, inclusive a nós, a nos rendermos a um amor que não merecemos, mas que nos é dado de graça.

O equilíbrio entre tolerância e pregação da verdade só será alcançado quando a Verdade, que é Cristo, governar nossa vida, nossos pensamentos e nossas atitudes.