Abuso sexual: confiando em Deus quando meu passado é dolorido

Artigo escrito originalmente por Dawn Wilson, e publicado aqui.
Traduzido, com permissão e algumas alterações, por Francine Veríssimo.

“Você precisa aprender a confiar nos homens de novo.”

Quando ela disse isso apenas alguns minutos depois de eu ter admitido que fui abusada sexualmente quando era criança por um homem em quem eu confiava, eu fiquei brava… muito brava! Ela não entendia a profundidade do meu medo, nojo, raiva e desamparo. Ela nem sequer reconheceu minha cicatrizes emocionais.

Como muitas outras mulheres, minhas cicatrizes do abuso pareciam únicas para mim. Eu estava confusa sobre o que era normal e usava uma variedade de mecanismos de defesa para continuar vivendo.

Se você foi abusada sexualmente, você talvez esteja lidando com isso de uma ou mais das seguintes maneiras: você se esconde ou mantém as pessoas a uma distância extrema, com medo de se machucar novamente. Você permanece adormecida, inerte durante a vida adulta. Se é casada, encontra dificuldades de responder sexualmente. Você tem medo da submissão – medo de perder o controle.

Talvez você se sinta danificada, se enxergando como um objeto sexual, ostentando sua sexualidade, e caindo na promiscuidade e outros pecados sexuais. Ou, como eu, você se dedicou a ser “boa” e a um ministério. Você pode não entender o poder do Evangelho, e seu foco, ao invés de estar em agradar a Deus, está em ganhar Seu favor.

Você talvez responda ao abuso com ansiedade, depressão, auto-aversão, ações de autoflagelação, problemas de intimidade, homossexualidade, medo, indecisão, perfeccionismo, uma necessidade de controle, distúrbios alimentares, ou vícios.

Satanás não se importa com como você reage ao abuso sexual… desde que você não se volte para Jesus. O inimigo sabe que quando nós colocamos nossa identidade, segurança e dignidade em Cristo, nós podemos viver em vitória.

Entretanto, demorou para que eu chegasse lá. Por anos, eu senti a necessidade de proteger quem me abusou e não machucar outros que o amavam. Era um pensamento distorcido, mas o inimigo se alegra em pensamentos deformados. No ensino médio eu tinha péssimas habilidades interpessoais. Na faculdade, tinha pensamentos suicidas e me sentia só. O abuso distorceu minha imagem de Deus e afetou minha habilidade de buscá-lO e de confiar nEle. Minha confiança estava quebrada.

Depois da faculdade eu me uni ao ministério Life Action e comecei uma jornada com Deus que mudou meu coração e minha vida. Um dia, enquanto eu cantava Do You Know my Jesus? (Você conhece meu Jesus?) no palco com a banda, eu de repente percebi que sabia tudo sobre Jesus, mas não O conhecia. Eu deixei o microfone, fui para o quarto de oração e coloquei minha vida nas mãos dEle.

As mudanças mais incríveis aconteceram quando eu aprendi a confiar a Ele meu passado dolorido. Algumas lições básicas que aprendi:

Deus me ama. Profunda e completamente (Jeremias 31:3; Romanos 5:6-10).

Deus não é conivente com o abuso; Ele odeia o mal (Salmo 11:5).

Eu posso confiar a justiça ao coração justo de Deus (Salmo 103:6; 146:7; Jeremias 17:10).

Eu posso perdoar os outros porque eu fui tão grandemente perdoada (Mateus 6:14-15, 21-22; João 8:7; Lucas 6:35).

Eu posso orar por quem me abusou para que ele encontre arrependimento (Lucas 6:28; Provérbios 28:13).

Paz e vitória vêm quando eu estudo e descanso em quem eu sou em Cristo (Efésios 1:3-8; Colossenses 2:9-10; 3:1-4; Romanos 8:31-39; Filipenses 4:13).

Eu posso usar o que o inimigo quer usar para o mal para trazer glória e louvor a Deus (a resposta de José: Gênesis 50:20).

Eu posso aprender como comunicar limites claros e puros em todos os relacionamentos, e falar a verdade em amor (Provérbios 4:23; Romanos 13:14; Efésios 4:15).

Eu preciso estar atenta para as armadilhas do inimigo, tentando controlar minhas respostas e me derrotar; eu preciso estar saturada da Palavra (2 Coríntios 2:11; 1 Pedro 5:8; Tito 2:11-12; Salmos 119:11).

Meus pensamentos vão controlar minhas ações e respostas, então eu preciso permitir que Deus transforme meus pensamentos (Romanos 12:2; Filipenses 4:8).

Eu vou crescer e me curar conforme eu me aproximar de mulheres de Deus que são modelo de como responder com o puro amor de Cristo (1 Pedro 3:3-5).

Eu posso, como um membro do corpo de Cristo, fazer parte daqueles que fazem abusadores pagar por seus atos – especialmente dentro da igreja (Tiago 5:19-20; Jeremias 22:3a; Mateus 18:15-17).

Eu posso também encorajar outras meninas e mulheres que ainda estão sofrendo para encontrar liberdade da dor do abuso sexual (Gálatas 6:2; Romanos 14:19).

Eu cresci em Cristo, mas ainda não é fácil. Apesar de Jesus ter dito que Ele veio para me dar vida abundante (João 10:10), às vezes eu volto ao modo de “sobrevivência” quando eu me permito sentir vergonha. Nesses momentos, eu esqueço quem eu sou – ou melhor, de Quem eu sou. Jesus carregou minha dor na cruz; eu não preciso carregá-la nem por um segundo.

Jesus carregou minha dor na cruz; eu não preciso carregá-la nem por um segundo. Click To Tweet

Apesar de as cicatrizes permanecerem, Deus me dá graça que cura.

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Eu estava lendo no Twitter sobre a hashtag “Primeiro Assédio” e meu coração afundou dentro do meu peito. Quantas meninas e mulheres já passaram por alguma situação de abuso! É preciso falar sobre isso. É preciso que saibamos que não estamos só, e que todas nós temos alguma história de abuso – seja físico ou emocional. Nesses momentos, por vezes, queremos odiar a Deus. Mas, a graça ainda está ali. Redenção e cura ainda estão ali.

Eu não tenho capacidade para lidar com esse assunto sozinha, mas se você tem uma história ou ferida que queira conversar sobre, estou aberta para isso. Não terei respostas, não saberei lidar com as feridas psicológicas. Mas, prometo que tenho orações e um coração disposto a chorar contigo.

Em Cristo,
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