
A Sabedoria em Provérbios: Dinheiro e Generosidade
Sabedoria Financeira: O que Provérbios nos Ensina sobre Dinheiro e Generosidade?
Em novembro de 2024, no Brasil, foi instaurada a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets – palavra do inglês que significa aposta ou apostar. O objetivo dessa CPI é investigar a ligação entre organizações criminosas, influenciadores digitais e jogos de apostas online, analisando os impactos financeiros desse mercado na sociedade brasileira.
No decorrer do primeiro semestre de 2025, assistimos a cenas lamentáveis durante os depoimentos de influenciadores que foram intimados ou convidados a se manifestarem sobre o tema. Entre contratos milionários e afirmações de que estavam agindo dentro da lei, os influenciadores, na verdade, estavam obtendo o seu lucro das muitas perdas ocasionadas pelas crescentes apostas realizadas por pessoas que viram nas bets uma forma de lucrarem e enriquecerem de maneira rápida. Nesse sentido, os noticiários brasileiros divulgaram amplamente casos de falência, problemas familiares e até suicídios causados por dívidas contraídas para financiar apostas. Mesmo pessoas de baixa renda estavam utilizando dos benefícios sociais – o famoso Bolsa Família – para fazerem apostas.
Infelizmente, em nosso país, até 2021, não tínhamos aulas de educação financeira nas escolas e – considerando que nossa relação com o dinheiro é desordenada por natureza, afinal, o pecado nos desequilibra – temos a tendência de agirmos pela emoção e, na ânsia de termos os bens que queremos, acabamos com o índice de 70% dos brasileiros endividados no cartão de crédito ou em empréstimos bancários.
É uma triste realidade que se impõe: alguns sofrem por serem ingênuos, porque lhes foi negado o acesso ao conhecimento; outros por tolice se acham “espertos” para agir descontroladamente e assim caem em ruína. Nesse cenário, há ainda aqueles que, ao lucrarem com a desgraça de ingênuos e tolos, zombam destes quando continuamente instigam e incentivam tais comportamentos destrutivos. No entanto, a Sabedoria nos convida à sua mesa para que nossa falta de entendimento, nossa ignorância e nossa tolice sejam curadas e possamos desfrutar de dias melhores, se dermos ouvidos aos seus conselhos.
A riqueza e o nosso coração
“A riqueza adquirida às pressas diminuirá, mas quem a ajunta pouco a pouco a aumentará” – Pv 13:11
“O invejoso corre atrás das riquezas, mas não sabe que há de vir sobre ele a pobreza” – Pv 28:22
Infelizmente, o caso citado na introdução a respeito das bets revela que muitos não estão preocupados em lidar com o dinheiro com sabedoria, deixando, na verdade, as emoções os dirigirem e tornando tudo uma questão de ganhar mais e mais, de forma fácil.
Vivemos em um mundo onde a lógica é fazer dinheiro com o dinheiro. Até os anos 90, pensávamos em terminar o estudo regular, fazer uma faculdade e conseguir um emprego em que pudéssemos nos fixar e construir a nossa vida.
Hoje, principalmente com a ascensão das criptomoedas – dinheiro virtual com renda variável e, em alguns casos, de alto risco e que usa criptografia para segurança nas transações –, excluímos o trabalho real como a fonte de renda primária para torná-lo apenas um meio de conseguirmos recursos suficientes para investirmos em criptomoedas, ações na bolsa de valores, fundos imobiliários, para com o tempo (e, vale ressaltar, um tempo curto na compreensão da maioria) deixarmos o trabalho regular para vivermos da renda que tais investimentos irão nos proporcionar.
Mas você pode me perguntar: “o que há de errado nisso? Não é melhor que eu ganhe uma renda mensal e possa ter mais tempo com minha família do que passar horas e horas no trabalho como CLT?” Com toda certeza, seria o ideal, sobretudo em um país, como o Brasil, onde a economia é confusa (tendo impostos elevadíssimos), o governo é imerso em corrupção, a inflação só aumenta, os preços nos supermercados são assustadores (que saudade de quando o café custava R$ 8,00!) e o salário mínimo é um insulto ao povo brasileiro. Certamente, precisamos nos informar e aprender meios e formas de conseguirmos melhorar nossa vida financeira sem sacrificar nossa família, mas não é isso que muitos têm como objetivo, e é aí onde mora o perigo.
A riqueza, em Provérbios, nunca é demonizada em si mesma, mas é apresentada como um teste de caráter que revela o coração. Alguns economizam pelo medo de se verem sem dinheiro e acabam se afundando em avareza, descuidam de si mesmos e até da própria família, não por insuficiência de renda, e sim por medo de um cenário de crise financeira. Assim, decidem que é melhor viver na escassez mesmo tendo a provisão do Senhor. O que ganham de eventuais investimentos ou de trabalhos extras é guardado ou reinvestido, sem considerar uma vida ao menos equilibrada entre bem-estar e segurança financeira.
Por outro lado, muitos gastam seu dinheiro sem pensar no futuro e nas mudanças que podem ocorrer durante a vida. Buscam ter os melhores celulares, as melhores roupas, comer nos melhores lugares, viajar para onde querem e, assim, entram em um ciclo vicioso de empréstimos, limites de cartões de crédito estourados e seguem parcelando as dívidas para que sobre dinheiro com o objetivo de comprar mais e mais.
O perigo sempre estará nos extremos: a riqueza sem sabedoria, sem o propósito de servir, se torna volátil e também uma desculpa para alimentarmos o medo, a avareza, a ganância e a inveja. Na era das redes sociais, ao rolar o feed, nos comparamos, invejamos e acabamos rejeitando as boas provisões do Senhor porque queremos o que o outro tem ou acreditamos que se tivermos o poder para comprar tudo o que desejamos, então, seremos felizes e seguros.
A verdade é que confiar nas riquezas leva à queda e correr atrás delas por inveja ou ganância conduz à pobreza. O pouco com o temor do Senhor é melhor do que o muito com angústia. Em tempos de comparações digitais e performance financeira, a Palavra nos chama ao contentamento, ao equilíbrio e à confiança.
Sabedoria, mordomia e generosidade
“Observe a formiga, ó preguiçoso, reflita nos caminhos dela e seja sábio. Não tendo ela chefe, nem oficial, nem comandante, no verão prepara o seu pão, na colheita ajunta o seu mantimento” – Pv 6:6-8
“Há quem dá generosamente e vê aumentar suas riquezas; outros retêm o que deveriam dar e caem na pobreza. O generoso prosperará; quem dá alívio aos outros, alívio receberá” – Pv 11:24-25
Como a maioria dos brasileiros, venho de uma família que não tinha a sabedoria do Senhor para lidar com o dinheiro, também nunca aprendi sobre educação financeira e há pouco tempo entendi que estava desonrando o Senhor com os meus bens. O problema de se viver assim é que vivemos para trabalhar e o medo das mudanças da vida nos tiram a tranquilidade do presente. Pelos exemplos da minha família, sempre acreditei que a vida era apenas trabalhar para pagar as contas e que fazer reservas de valores ou investir eram coisas para pessoas abastadas financeiramente.
O que podemos entender com os ensinamentos de Provérbios sobre a vida financeira é que a administração sábia, ou seja, a mordomia dos recursos dados por Deus, aparece como virtude fundamental. Se de um lado ainda temos brasileiros que se arriscam em bets e gastam ou retêm seu dinheiro desequilibradamente, do outro temos também um começo de mudança de mentalidade, canais e mais canais têm surgido na internet ensinando sobre como sair das dívidas, juntar patrimônio, investir para ter uma vida de qualidade e poder cooperar com uma sociedade pautada por uma justiça generosa.
Nosso irmão em Cristo, Eduardo Feldberg, autor do livro Deixe de Ser Pobre: os segredos para você sair da pindaíba e conquistar sua independência financeira, com seu canal no YouTube, Primo Pobre, tem ajudado muitos a adquirirem essa mentalidade de uma boa administração da vida financeira. Em um de seus vídeos ele nos lembra de algo lógico e antigo: “O enriquecimento só tem três amigos: trabalho, simplicidade e investimento”. Se queremos mudar nossa situação financeira, precisamos empenhar esforços iniciais que poderão exigir de nós mais trabalho para rendas extras; precisamos também não gastar além daquilo que ganhamos ou guardar além do necessário para não comprometer o nosso bem-estar. Além disso, temos que pensar no futuro, investir com segurança, fazer render o que ganhamos para que possamos estar amparados em dias de crises ou ainda para termos uma velhice tranquila, como bem nos ensina a própria sabedoria das formigas.
Em suma, não existe uma regra mágica ou um investimento milagroso, precisamos trabalhar, estudar e administrar bem nossos recursos para nos dedicar à família e aos amigos, contribuir financeiramente com nossas igrejas, ajudar os desfavorecidos de nossa sociedade porque o propósito dos bens que o Senhor nos concede é multiplicar para servir aos que estão ao nosso redor e viver uma vida em equilíbrio.
Nem todos se tornarão milionários seguindo os conselhos de Provérbios, mas, certamente, terão uma vida mais tranquila, um coração grato e generoso e também uma confiança sólida no Senhor que provê tudo o que precisamos.
Vida financeira em equilíbrio
É importante lembrarmos que provérbios são princípios gerais de vida, práticas firmadas no temor ao Senhor que nos dão sabedoria e inteligência para viver em um mundo caído. Porém isso não significa que, ao seguir todos os ensinos, teremos sempre uma vida bem sucedida, feliz e tranquila; na verdade, o que acontecerá é que seremos munidos de um repertório de vida, segundo a vontade de Deus, para lidarmos com toda e qualquer situação, seja ela boa ou ruim.
Deus não nos quer apenas sobrevivendo neste mundo; ele nos deu sua criação para cuidarmos e desfrutarmos dela com sabedoria. É legítimo que todo filho de Deus deseje buscar uma vida sustentável, com paz e alegria para si e seus familiares. Uma vida financeira em desequilíbrio pode trazer inquietação, sofrimento, contendas e relacionamentos quebrados, principalmente com Deus.
A sabedoria de Provérbios nos convida a rever nossa relação com o dinheiro não apenas como uma necessidade material, mas como algo que influencia o espiritual e o relacional. Riqueza, diligência, contentamento e generosidade são características de um mesmo chamado: viver com temor do Senhor, usando nossos recursos para honrá-lo e servir ao próximo. Que voltemos ao texto bíblico para reencontrar princípios eternos e assim cultivar, no presente, a antiga e preciosa cultura da mordomia fiel que deve ser um traço daqueles que buscam ser mais parecidos com Jesus.