A Grande Comissão
Quando o assunto “missões” vem à mente ou surge numa conversa é inevitável não lembrar do famoso “ide de Jesus Cristo”, o texto do evangelho de Mateus 28:19, que diz assim: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Esse versículo isolado é considerado, de forma geral, uma ordem de Cristo para seus discípulos pregarem o evangelho em todas as partes do mundo a todas as pessoas.
Se analisarmos atentamente, logo no início do versículo encontramos a conjunção “portanto”, que aponta para a conclusão de algo dito anteriormente. Logo, o “ide” do v. 19 é consequência do v. 18. Para se ter a correta compreensão, é preciso estudar o verso em seu contexto, isto é, considerando o que o antecede e o que se segue. Esse trecho aparece com o título “A Grande Comissão” na maioria das Bíblias, e é ele que passaremos a analisar.
Toda autoridade
“Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.” (Mateus 28:18)
Era domingo de manhã e as mulheres chegaram ao túmulo para embalsamar o corpo do Senhor Jesus, mas ele não estava lá, um anjo apareceu e contou que tinha ressuscitado, como havia dito. Disse ainda que deveriam avisar os discípulos que fossem para a Galileia, onde o Mestre os aguardava. A mensagem foi transmitida e os seguidores encontraram Cristo ressurreto, que lhes instruiu com o que lemos no texto da Grande Comissão.
Imagine o misto de alegria e surpresa que tomou conta daqueles homens que, três dias antes, haviam lamentado profundamente a morte de seu líder. Depois de três anos juntos, aprendendo, vivenciando milagres e ouvindo que ele era o Messias prometido séculos atrás, que viria para libertar o povo de Deus, aparentemente toda expectativa havia sido depositada na tumba, junto com o corpo sem vida dele. Ainda se lamentando, os discípulos recebem aquele recado inesperado das mulheres e vão para a Galileia. Jesus Cristo realmente está vivo! Ressuscitou, como havia dito! O que será que ele tem a dizer?
O Senhor afirmou que toda autoridade lhe fora dada no céu e na terra. A frase está na voz passiva, o que indica que o sujeito sofreu a ação. Cristo recebeu autoridade. Para entender exatamente o que isso significa é preciso retroceder um pouco na história.
O Senhor Deus criou o homem para com ele se relacionar, ter uma ligação e um vínculo direto. A entrada do pecado no mundo causou a separação entre as partes. O Deus Santo não pode se relacionar com a impureza. É inconcebível que o Justo conviva com o pecador sem aniquilá-lo. Faz parte da natureza de Deus, assim como passou a fazer parte da trajetória humana a dor, o castigo, a morte e o inferno.
O Deus de amor logo providenciou a solução que iria transpor o abismo que havia se formado. Prometeu que o Redentor viria para destruir a morte e o pecado, aplacar a ira divina e restaurar aquele relacionamento inicial. O Senhor fez aliança com o homem e, por anos e anos, preservou para Si um povo seu que aguardava a concretização da promessa.
Assim como por um homem entrou o pecado no mundo, também por um homem precisaria vir a salvação. Deus Pai enviou seu único Filho à terra. Jesus Cristo, Deus e Homem, sofreu toda a justa ira do Pai contra todo o pecado de todos os eleitos de todos os tempos. Se humilhou e foi fiel até a morte, e morte de cruz (Filipenses 2:5-8).
Cristo venceu o pecado, o inferno e a morte, ressuscitando ao terceiro dia! A missão do Filho foi cumprida e, com isso, Deus Pai lhe entregou toda autoridade. Jesus Cristo é o Senhor sobre céus e terra.
O que ele diz a seus discípulos é que o plano deu certo. Ele conquistou domínio completo e absoluto sobre todas as coisas: anjos, homens, criação, poderes espirituais e físicos, enfim, tudo. Que segurança isso nos traz! Como diz uma famosa citação atribuída a Abraham Kuyper: “Não há um único centímetro quadrado, em todos os domínios de nossa existência, sobre os quais Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: ‘É meu!’”
Portanto, ide…
“Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado.” (Mateus 28:19,20a)
Cristo cumpriu a missão e recebeu toda autoridade no céu e na terra, portanto, a partir de então, seus discípulos devem anunciar essa vitória aos outros. Aqueles homens acompanharam a obra de Cristo, sua divindade e poder. Viram-no morrer e ressuscitar. Tanto a vitória sobre o pecado, quanto a salvação eram reais. Eles podiam falar sem medo porque quem os enviava estava revestido de poder. O Senhor Jesus mostrou ser quem ele disse que era – Deus encarnado!
Nós fazemos missão baseados no que Jesus Cristo já fez. Não falamos sobre nós, o que temos e somos, mas sobre o que ele fez por nós e por causa do que fez por nós.
Deus sempre foi em busca do pecador. Desde o jardim do Éden, passando por todo o Antigo Testamento, até enviar seu Filho ao mundo, ele atraiu a si todos os que lhe pertencem. Agora, Cristo nos manda ir. Fez-nos mensageiros, embaixadores. Levamos uma mensagem que aponta para alguém muito maior que nós. Somos seus representantes e falamos em seu nome. Quanta responsabilidade pensar que, sempre que eu falar, aponto para Cristo que me comissionou.
Ide é um imperativo, uma ordem, seguido por “fazei discípulos … batizando-os”. Os servos de Deus anunciam o evangelho com o objetivo de que aquele que o Pai escolheu seja salvo, recebido na família da fé e transformado à imagem de seu Filho.
Outra ordem que acompanha o ide é “ensinando-os a guardar…”. Ser discípulo é seguir o Mestre, obedecer seus mandamentos e fazer sua vontade. Aquele que ouve o evangelho precisa ser acompanhado para aprender como deve viver dali em diante.
Jesus Cristo e os doze nos apresentam o conceito do discipulado. Caminharam juntos, passaram bastante tempo lado a lado, dividiram o pão, as dores e as alegrias. O Verbo não teve preguiça de conviver e instruir pessoalmente aqueles aos quais ele deu a vida, independente de quem fossem. Agora, ele ordena que eles vão, façam o mesmo e ensinem com suas vidas também.
Há companhia na jornada
“E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.” (Mateus 28.20b)
Depois de cerca de três anos maravilhosos sob as asas do bom Mestre, acostumados a contar com sua presença e proteção, certamente medo e insegurança rondavam o coração dos discípulos. Afinal, tinham ouvido diversas vezes que o mundo lhes seria hostil, assim como tinha sido com ele.
A promessa de Jesus Cristo de estar com os seus para sempre foi cumprida no Pentecostes (Atos 2). O Salvador foi elevado aos céus, onde está à direita de Deus intercedendo pelos seus, e enviou seu Santo Espírito para que os auxilie no restante da jornada até que cruzem a linha da eternidade.
No dia de Pentecostes, o Espírito Santo de Deus desceu sobre eles e todos ficaram cheios de sua presença. Cristo não estaria mais fisicamente ao lado deles, mas dentro, preenchendo cada parte de suas vidas . Ele é Emanuel, que significa Deus conosco!
Diferentemente do Antigo Testamento, em que o Espírito de Deus se manifestava em momentos específicos e depois se retirava, a partir de agora ele estaria constante e eternamente em cada um dos eleitos de Deus, dando poder, ousadia e coragem ao longo da caminhada cristã. Como um selo, está atado firmemente ao coração.
Uma vez cheios do Espírito, os discípulos não pararam mais. Pregaram para seu próprio povo e para os que estavam distantes. Plantaram igrejas e fizeram muitos discípulos por toda parte. Samaria, Judeia e os confins da terra ouviram as Boas Novas da salvação.
A Grande Comissão hoje
Não restam dúvidas de que fomos chamados pelo Senhor para fazermos discípulos. Isso está expresso tanto na ordem que acabamos de estudar, quanto nos exemplos bíblicos e históricos tão claros. Uma vez transformados pelo evangelho, os fiéis servos de Cristo não apenas pregaram, mas morreram por ele.
Se hoje professamos a fé cristã é porque algum discípulo obediente colocou em prática o ide. Aproveite esse momento para louvar a Deus pela vida daquela pessoa que te apresentou a mensagem que mudou sua vida totalmente, e por aquelas que caminham ao seu lado te mostrando como viver o Evangelho. Ore ainda para que você seja essa pessoa para alguém.
Nós podemos fazer isso porque toda autoridade foi dada a Cristo e ele nos assegura. Nós pregamos sobre arrependimento de pecados e vitória sobre a morte e o inferno porque ele venceu tudo isso. Essa é a boa notícia que salva os homens.
A ordem é para todos. Alguns se dedicam a isso em tempo integral e daí obtêm seu sustento, como os pastores, missionários e evangelistas. Outros, o fazem enquanto estudam, trabalham e vivem suas vidas comuns. Alguns têm o preparo e a eloquência do apóstolo Paulo. Outros são como a mulher samaritana, ao serem transformados saem imediatamente a testemunhar e muitos creem (João 4:28-30,39). Alguns frequentam as igrejas desde o nascimento, outros foram encontrados pelo Senhor Jesus nos caminhos tortuosos da vida. Todos eles salvos pelo mesmo sacrifício porque o Evangelho não é excludente, porque todos sem Cristo têm o mesmo destino, independente da caminhada que trilhem deste lado da eternidade, e porque todos com Cristo são iguais, servos aceitos diante de Deus pelo sacrifício do Redentor.
“A nós não é dada a alegria de conquistar. Ele é quem conquista. Nós simplesmente usufruímos da sua conquista, somos meros anunciadores, arautos que falam daquilo que Cristo conquistou … Jesus é o missionário perfeito que cumpriu a missão e a minha missão não tem muito a ver com a dele. Minha missão não é imitá-lo tanto quanto anunciá-lo.” (Heber Campos Jr)¹
Que possamos nos unir ao coro dos apóstolos Pedro e João, quando líderes religiosos tentaram coagi-los a não falarem a respeito de Cristo:“Mas Pedro e João lhes responderam: Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus; pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos.” (Atos 4:19,20; grifo meu).
Não tem como deixar de falar da maravilhosa história de amor de Deus para salvar seu povo! O Senhor Jesus Cristo fez tudo em nosso lugar, cumpriu perfeitamente a missão e nos assegura não um final, mas uma vida eternamente feliz. A nós cabe dar a boa notícia aos outros. Seremos indesculpáveis se negligenciarmos tão grande salvação (Hebreus 2:3).
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¹ Pregação disponível em:
<https://open.spotify.com/episode/7MXfNIgN1uQge4PIYz1LBG?si=9fd69131c25348ab>
Esse post faz parte da nossa série de postagens de Agosto com o tema “Missões”. Para ler todos os posts clique AQUI.
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This is a thoughtful breakdown of the Great Commission that really emphasizes why Christ’s authority comes first—it makes the call to discipleship feel grounded and encouraging rather than overwhelming.
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