A Amizade como Disciplina Espiritual: Quando amizades mudam ou terminam 

“O fim das coisas é melhor do que seu início” (Eclesiastes 7.8)

“Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu” (Eclesiastes 3.1)

O rompimento de certos relacionamentos dói como uma espécie de luto. Creio que todas nós já vivemos esse tipo de experiência. Ainda que não seja um rompimento total, mas apenas uma mudança, quando algo que existia passa a deixar de existir da forma que era, isso nos machuca, mesmo se acontecer para o bem.

Afinal, em se tratando de amizades, como simplesmente seguir a vida quando temos de deixar para trás pessoas que participaram de uma boa parte de tudo o que somos ou fizemos? Há dores que, embora silenciosas, doem por um bom tempo no nosso coração, e acredito que o final de algumas amizades seja esse tipo de dor. Nos despedimos silenciosamente de bons momentos, conversas, risadas e tudo mais que os relacionamentos exigem, para aprender a viver novamente sem todas essas coisas, ou começar tudo de novo com outras pessoas, e isso quase sempre é dolorido, ainda que saibamos que não há outro caminho. Em um desses momentos, surgem perguntas em nosso coração do tipo: “será que o problema fui eu?”, ou “será que eu deveria ter feito algo diferente?”

Mas quando olhamos para a Bíblia, Deus nos diz que há um tempo certo para todas as coisas. Há tempo de plantar e há tempo de arrancar o que foi plantado. Há tempo de derrubar e há tempo de construir. Há tempo de rir e tempo de chorar. Há tempo de rasgar e há tempo de costurar (cf. Eclesiastes 3). É assim que devemos encarar os ciclos dos nossos relacionamentos: há um tempo certo para todas as coisas, e esse tempo já foi determinado por Deus. Aqui, nesta vida vaporosa debaixo do sol, as coisas simplesmente escorrem pelos nossos dedos. Tudo é vapor, tudo é vaidade, tudo começa e termina porque não importa o quão bom seja, qualquer coisa que não seja Deus certamente nos decepcionará em algum momento. 

Pessoas não são Deus. Relacionamentos não são Deus. Por isso, nos decepcionamos e também decepcionamos os outros. Por isso, as coisas mudam ou terminam. Se desejamos encontrar algo fiel, eterno e imutável, que olhemos para Cristo, aquele que é o mesmo ontem, hoje e para sempre. A verdade é que não importa quão boa seja para nós determinada amizade ou quão bons amigos sejamos nós, tudo está fadado a terminar de algum jeito. 

As amizades também têm estações. Algumas nascem para caminhar conosco por muitos anos, outras surgem para nos sustentar em momentos específicos. Há pessoas que Deus usa para nos levantar quando estamos fracos, para nos ensinar quando estamos confusos, para nos acompanhar quando ainda não sabemos andar sozinhos. Mas, quando o propósito daquela estação se cumpre, o Senhor, em Sua soberania e amor, permite mudanças que não necessariamente escolhemos.

Sim, eu sei como pode ser difícil aceitar algumas mudanças, querida amiga. Nosso coração prefere algo que seja constante, fiel, estável. Queremos que tudo o que foi bom apenas continue sendo. Porém, a vida com o Senhor nos ensina que amadurecer envolve também nos despedirmos. Relacionamentos não são fáceis, pessoas não são fáceis e o melhor que podemos fazer para os outros e para nós mesmas, em alguns momentos, é simplesmente ir embora.

Ainda em Eclesiastes, Salomão, de forma direta, nos ensina que o fim das coisas é melhor que seu início. Não devemos encarar o fim das coisas apenas com pesar, ainda que nos machuque, mas como misericórdia de Deus para nós e para os outros. O fim não é um castigo, mas um cuidado de Deus. O fim, ou a mudança da forma como algo costumava ser, é apenas Deus nos ensinando que não temos controle sobre as coisas, sobre as pessoas, sobre os acontecimentos, nem mesmo sobre o nosso coração. O fim é um recado claro da parte do Senhor: pessoas falham conosco, nós falhamos com as pessoas; o tempo passa, as coisas mudam, a vida muda, a estação muda, e tentar controlar todas essas coisas é como segurar o vapor na mão. Nessa vida vaporosa, há apenas um relacionamento que é sólido como uma rocha, que não nos decepcionará e que não vai embora quando nós o decepcionarmos, e esse relacionamento é com o Senhor.

Bem, também é importante reconhecer que algumas amizades não terminam abruptamente, mas se transformam. A intimidade diminui, a frequência muda, a relação assume outra forma. Isso também faz parte dos ciclos da vida. Nem toda mudança precisa ser vivida como perda. Quando essas mudanças acontecem, somos convidados a olhar para dentro e para cima. Para dentro, para permitir que Deus trate nossas emoções. É, por exemplo, diante de um perdão que nunca nos foi pedido que o Senhor nos ensina a crescer em humildade e nos torna mais semelhantes a Cristo. Também somos chamadas a olhar para cima, para lembrar que Deus é nosso relacionamento mais constante. Pessoas podem se afastar, mas o Senhor permanece. Ele é o mesmo em todas as estações, fiel quando tudo muda ao redor.

Talvez a pergunta mais importante não seja “por que essa amizade terminou?”, mas “o que Deus quer me ensinar por meio disso?” Às vezes, ele nos ensina a confiar menos em pessoas e mais nEle mesmo. Às vezes, nos ensina que não somos tão boas quanto pensamos. Outras vezes, nos ensina a valorizar mais profundamente os vínculos que permanecem. Em alguns momentos, ele apenas nos chama ao descanso, lembrando que não precisamos carregar tudo sozinhos e que há coisas que não temos poder nenhum de mudar ou controlar, e isso nos faz confiar mais naquele que pode todas as coisas.

À luz da Palavra, entendemos que amizades que mudam ou terminam não anulam o bem que foi vivido. Elas fazem parte da história que foi escrita pelo próprio Deus. Cada estação cumpriu seu papel. Cada pessoa deixou sua marca, e Deus, que governa o tempo e cada acontecimento, continua conduzindo nossos passos com sabedoria e amor.

Que, diante dos fins, aprendamos a confiar. Que, diante das mudanças, escolhamos descansar e que, em todas as coisas, possamos crer verdadeiramente que o Deus que governa cada acontecimento do mundo é também o Deus que nos ama e nos conduz em misericórdia e bondade todos os dias da nossa vida.


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