A Amizade como Disciplina Espiritual: Construindo vínculos intencionais na igreja
Não é fácil escrever sobre relacionamentos na igreja no cenário em que me encontro hoje. Estou a mais de 9.000 quilômetros da minha antiga igreja local, longe das minhas amigas, do meu país e da minha cidade do coração, o Rio de Janeiro, que peguei emprestada do meu marido desde que nos casamos. Longe de tudo aquilo que tornou mais simples construir laços dentro de uma comunidade cristã. Talvez por isso eu esteja ainda mais convencida de que Deus escolhe os temas que escrevemos aqui no Graça; como diria minha mãe: “por essa, eu não esperava”. Mas, se o Senhor quis assim, que reflitamos juntas e que Ele mesmo conduza essa conversa aos nossos corações.
Desde que me converti, em maio de 2015, me vi fascinada por um tipo de amizade que ia além de afinidades superficiais como gostar das mesmas músicas, assistir às mesmas séries ou gostar do mesmo ator ou cantor pop da época. Ao chegar à igreja e começar a frequentar os pequenos grupos de estudo bíblico, experimentei a hospitalidade de irmãos e irmãs que, com muita doçura, me ajudaram a entender como as coisas funcionavam, e eu pude conhecer a Deus.
Perguntas como “como ler a Bíblia?”, “como orar?”, “qual livro teológico você me indica?” ou “como aprender mais de Deus?” passaram a fazer parte das nossas conversas. Não demorou para que eu me percebesse cercada por amigos que me ajudavam não apenas a caminhar na fé, mas também a crescer em maturidade. Se um provérbio africano afirma que “é preciso de uma aldeia inteira para educar uma criança”, é bom ter uma comunidade na fé para crescer em Cristo. Deus nos criou para o relacionamento, não me admira ser necessário que esse vínculo seja intencional na sua Igreja.
Ao longo dos meus 11 anos de conversão, fui membro de quatro igrejas diferentes, no Brasil e fora dele, por conta das mudanças que vivi nesse caminho. Ainda assim, em cada uma dessas comunidades pude experimentar algo precioso: amizades na fé que fogem das quatro paredes e ultrapassam o tempo e a distância.
É um privilégio perceber que muitos desses vínculos permanecem até hoje, alguns mantidos por simples mensagens trocadas, outros por orações constantes. Sem citar nomes, há algo em comum em todas essas histórias: relações marcadas pela dependência em Deus, pela vulnerabilidade de se abrir com o outro e pela humildade de caminhar sem egocentrismo.
Uma amizade em Cristo se assemelha a um casamento: não nasce da perfeição, mas da graça. Somos pecadores redimidos, caminhando juntos em direção ao céu. São esses elementos que sustentam vínculos capazes de atravessar geografias.
E é aqui que preciso confessar, querida: criar vínculos na igreja aqui na Holanda não tem sido tão natural quanto era no Brasil. A barreira da língua, a cultura diferente, a busca por uma comunidade séria na fé e a dificuldade de me expressar em inglês sem perder quem eu sou… tudo isso torna o processo desafiador.
Às vezes, uma conversa que antes seria profunda agora se resume a uma frase simples: “o tempo está bom hoje.” Sinto que minha voz não alcança o coração do outro, como se eu fosse uma criança aprendendo a falar; tantas ideias querendo sair, mas as palavras não acompanham o pensamento. E é justamente nesses momentos que Deus, com Sua graça sutil e perfeita, nos presenteia com pequenos sinais que me lembram: Ele está conosco. É Ele o Construtor dos relacionamentos.
Em uma das igrejas que visitamos aqui nos Países Baixos, tivemos a alegria de encontrar um casal brasileiro em meio a membros holandeses, norte-americanos, ucranianos e sul-africanos. Que Jesuscidência! Em uma igreja com menos de 50 pessoas, qual era a probabilidade? Então me lembro: Deus está aqui na Holanda.
E como se não bastasse, em outra comunidade, uma irmã holandesa nos abordou falando algumas palavras em português com tanta alegria, com um sotaque tão natural e um amor pelo Brasil tão genuíno que parecia um abraço do Senhor no meio da distância. “Amiga!” ela me cumprimenta. “Primo!” ela exclama para o meu filho José. Uau… de novo, eu me pergunto: qual era a probabilidade? Não somos melhores amigas, nem precisamos ser, mas o fato é que esse vínculo intencional pode gerar bons frutos na nossa caminhada, por que não cultivá-los?
São esses pequenos “alívios” que me lembram: relacionamentos intencionais não dependem da facilidade, mas de Deus e da vulnerabilidade sincera. O que antes eu diria com convicção: “eu tenho facilidade em fazer amigos”, hoje reconheço: tudo é fruto da graça de Deus. Ele abre portas, cria encontros, guia cada passo. Mesmo em terras estrangeiras, posso confiar: Deus está conosco, conduzindo cada vínculo que Ele deseja construir.
Querida amiga, amizade verdadeira não depende da sua facilidade em conversar nem da timidez que você carrega. Depende de Deus. Ele é quem coloca no nosso caminho aqueles que irão caminhar conosco na fé. Lembre-se das amizades na Bíblia: Jônatas e Davi, e tantos outros, tiveram companheiros que se tornaram respostas de oração, mesmo em meio a dificuldades.
Ore. Peça ao Senhor por bons amigos, mas, antes de pedir, olhe para si mesma: que tipo de amiga tenho sido? Como posso refletir melhor Jesus nos meus relacionamentos? Precisamos ser intencionais, humildes e cuidadosas, construindo vínculos que edificam e fortalecem, não relações egoístas ou abusivas. Então descanse no Amado: Ele valoriza bons relacionamentos e enviará vínculos que nos encorajam e nos afiam para o céu. Como Provérbios 27:17 nos lembra: “Assim como o ferro afia o ferro, o homem afia o seu companheiro.”
Que cada amizade seja graça de Deus em ação, um sopro de alívio, um abraço do Pai em meio à distância, e sempre que a insegurança tomar seu coração, lembre-se: Deus ama os relacionamentos. Ele é o Construtor, e nenhum vínculo desejado por Ele se perde.
Enquanto eu escrevia este artigo, Deus me lembrou que Ele continua enviando amigos.
Penso nas mulheres do Graça em Flor, um ministério formado por 16 voluntárias espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. Somos diferentes em histórias, rotinas e personalidades, mas unidas pelo mesmo Cristo. Entre lágrimas e sorrisos compartilhados, aprendemos que amizade cristã também é intercessão. Mais do que amigas, somos guardiãs umas das outras.
Recentemente, uma de nossas escritoras está de mudança missionária da capital de São Paulo para o sertão da Bahia. Em meio a tantas despedidas e desafios, ela compartilhou um desejo simples, quase despretensioso: levar consigo sua cafeteira elétrica. E, ali, naquela pequena oportunidade, Deus nos lembrou que o Reino também se constrói nos detalhes. Presenteamos essa amiga com a cafeteira e, junto dela, vieram mensagens, orações e palavras que inundaram o coração dela… e o meu.
Volto a esse texto com a permissão da nossa editora e com o coração aquecido para registrar: não precisamos ir longe para perceber que o Senhor nos envia os nossos amigos. Precisamos estar disponíveis, atentas e dispostas a caminhar lado a lado com Jesus. Quem anda com Ele, inevitavelmente encontra outros pelo caminho.
Como disse Gloria Furman: “Deus nos projetou para precisarmos umas das outras.” O Reino de Deus não é solitário. Deus não nos quer sozinhas. Ele tem para nós amizades que nos levam para mais perto do céu.
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