A Amizade como Disciplina Espiritual: Amizade como espaço de confissão e cura

Uma das coisas difíceis de ser filho único é que você precisa, desde muito cedo, ser criativo para saber lidar com a solidão. Embora alguns romantizem a ideia de que ser filho único é ser mimado por ser o centro das atenções – e em alguns casos isso pode até ser verdade – no meu caso, foi um exercício desafiador.

É claro que tive coleguinhas de escola, que depois iam à minha casa para brincarmos juntas; na adolescência, também tive amigas para estudar, conversar e passear nos intervalos das aulas. Porém, houve momentos da minha vida que dias escuros chegaram e tive de enfrentá-los sozinha. E, se não fosse o meu diário, as histórias que inventava sobre mundos distantes e minhas orações silenciosas ao olhar as estrelas – imaginando quão grande Deus seria e tentando compreender por que eu estava passando por dias tão difíceis – certamente teria caído em densas trevas.

Recentemente tivemos a quinta e última temporada de Stranger Things e para nós, fãs de Harry Potter, foi como assistir a um eco moderno da história que nos inspirou sobre o valor da amizade. Lembro-me que, aos 12 anos, peguei o primeiro livro da saga de Harry Potter em mãos e, em um dos finais de semana mais sombrios da minha vida, fui consolada pela amizade de Harry, Rony e Hermione. Daquele dia em diante, desejei em meu coração ter amigos para nunca mais enfrentar minhas tempestades sozinha.

Na presença de Rony e Hermione, Harry encontrou um lugar para ser quem era e lidar com o desprezo que sofria de seus tios por ser um bruxo. Assim também, Eleven encontrou na amizade de Mike, Lucas, Dustin, Will e Max um lugar para ser quem era e usar seus dons psíquicos para ajudar, e não mais para machucar. É isso que a Amizade é: um instrumento de Deus para revelar virtudes, cooperar na edificação de identidades e ser um abrigo, um lugar de cura, nos dias difíceis.

Amigos não mentem!

Quando conhecemos o Evangelho e o real padrão de amizade que a Palavra nos ensina, compreendemos que amigos só podem estar unidos pelo amor verdadeiro. A sua pureza, portanto, é mantida pela verdade com a qual tratamos uns aos outros (cf Ef 4.25) e na série é isso que admiramos na amizade dos protagonistas.

A história de Stranger Things, criada pelos irmãos Duffers, se passa nos anos 80 em uma cidade chamada Hawkins, onde um garoto, Will, desaparece misteriosamente. Seus amigos Mike, Dustin e Lucas se engajam na busca por ele e, nessa missão, acabam encontrando Eleven, uma menina com poderes psíquicos. A partir desse encontro, ocorrem vários desdobramentos e, por fim, descobrimos que Will foi parar no mundo invertido – uma espécie de Hawkins ao contrário, toda destruída e dominada por seres assustadores – e Eleven se torna a amiga necessária para essa missão de resgatar o garoto perdido.

Por ser dotada de poderes extraordinários, Eleven foi usada em vários experimentos do governo americano para ser uma arma contra os comunistas na Guerra Fria. Ela vivia confinada em um laboratório junto com outras crianças como ela. Nesse contexto, suas dores eram constantemente ignoradas em prol dos projetos científicos. Ela cresceu vivenciando o pior; até que, ao ser encontrada por Mike e seus amigos, Eleven passa a ter um espaço de amor e verdade para ser quem era, para ser vulnerável.

Na primeira temporada, vemos Mike, Lucas e Dustin explicando a ela o que era ser amigo. Eles dizem que amigo é alguém por quem você faria qualquer coisa, com quem você divide o que tem de melhor, cumpre seus compromissos e promessas, amigos compartilham segredos que os pais não sabem. 

Logicamente, este último ponto é um tanto perigoso, nossos pais devem ser nossos primeiros melhores amigos com quem podemos compartilhar tudo, mas sabemos que nem sempre isso é possível para muitos. Principalmente quando erramos ou quando carregamos culpas e feridas que acreditamos precisar esconder, seja por medo, vergonha ou para “poupar” quem amamos.

Ainda na primeira temporada, Mike e seus amigos descobrem uma forma de chegarem até Will por um portal que ficava em uma suposta base militar na cidade. O que eles não sabiam é que ali, na verdade, ficava o laboratório onde Eleven e as outras crianças ficaram cativas. O que ela não havia contado aos seus amigos era que a passagem para o mundo invertido se abriu por sua culpa e, consequentemente, Will havia desaparecido. 

Ao atacar, com seus poderes, aquele que feriu as crianças que moravam naquela base científica, sua ira acabou abrindo o portal para o mundo invertido e possibilitou que os seres daquele mundo adentrassem Hawkins e capturassem Will.

Isso se torna um peso para ela. Até o momento em que é descoberta por Mike e seus amigos tentando desviá-los do caminho para chegarem ao portal. Mais tarde, ao revelar a verdade aos amigos e dizer a eles que se via como um monstro por tudo o que aconteceu no laboratório e com Will, abre-se o espaço no qual ela é acolhida e a amizade entre eles revela algo maravilhoso sobre si mesma: por trás de toda dor causada por mentiras e manipulações havia uma identidade a ser reconstruída e ela podia ser amada como era, com ou sem poderes.

O lema da amizade entre eles era “amigos não mentem” e, sim, se queremos ser curados de nossos pecados, dores e marcas que a vida nos deixou, precisamos orar por amigos verdadeiros, que nos amarão mesmo depois que revelarmos nossas fraquezas e que permanecerão ao nosso lado até que tudo seja redimido em Cristo, o Amigo dos amigos. Afinal, a amizade é o amor que permanecerá na eternidade.

A verdade traz cura! 

Portanto, confessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros, para que vocês sejam curados. (Tg 5.16)

Depois que conheci o Evangelho muita coisa mudou em minha vida. Uma das mais inacreditáveis – sim, para mim foi surpreendente – é que Deus me deu irmãs-amigas como Harry e Eleven também tiveram; nosso Pai tem cuidado de mim por meio delas. É importante lembrarmos que amizades são imperfeitas e muitas vezes irão nos decepcionar, entristecer e até mesmo nos trair, mas nada muda o fato de que elas são instrumentos de Deus para o nosso bem.

Uma das experiências mais difíceis foi tornar-me vulnerável e falar a verdade sobre minhas feridas e meus pecados, mas quão precioso e sublime foi quando entendi que poderia baixar minha guarda, despir-me das armaduras que criei para me proteger – muitas vezes em vão – e ser quem eu realmente era. Assim pude ser cuidada, corrigida, amada e, finalmente, curada em muitas questões e estar em processo contínuo de cura até que tudo se torne perfeito.

A amizade tornou-se um abrigo, um reflexo do próprio Cristo, que está pronto para ouvir nossas confissões. Seu coração, manso e humilde, é profundamente atraído a nos curar. Agora Ele já não nos chama mais de servos, mas de amigos (cf Jo 15:15) e nos fez parte de uma grande família, sua Igreja, seu Corpo, para que pudéssemos desfrutar da bênção da amizade entre nós e não mais da solidão trazida pelo pecado. 

Como disse C. S. Lewis em seu livro Os Quatros Amores, Deus é o mestre de cerimônias secreto ligando corações e histórias por meio do fio redentor de seu sacrifício na cruz. Ele nos escolheu, e não nós a Ele. E é também Ele quem escolhe aqueles que serão nossos amigos. Não existem coincidências na vida de um cristão. A amizade é um instrumento da Verdade para curar nossos corações – um ensaio, ainda imperfeito, da comunhão que desfrutaremos plenamente na eternidade.


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